A verdadeira elite nacional


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A entrevista do ex-Ministro da Saúde Adib Jatene ao programa Roda Viva, da TV Cultura, na última segunda-feira, foi uma aula inesquecível de brasilidade. Nos últimos anos consolidou-se uma falsa idéia de elite no País, associada aos miliardários dos fundos “off-shore”, aos neo-ricos do mercado financeiro, aos deslumbrados da Daslu e do Cansei. Esse elitismo inculto e basbaque acabou jogando para segundo plano uma elite primorosa, que luta e resiste e que, assim que se esgotar esse ciclo de financeirização da economia, retomará a luta civilizatória. São médicos renomados, membro do Poder Judiciário, cientistas, empresários responsáveis e discretos, intelectuais, grupos que não perderam a identidade nacional. Jatene é o representante máximo dessa elite responsável. Na entrevista, relatou como pediu demissão do primeiro governo Fernando Henrique Cardoso, após ter conseguido a criação da CPMF (Contribuição Provisória sobre a Movimentação Financeira) e ver a Fazenda desviar da Saúde mais do que tudo o que a nova contribuição estava arrecadando. Mostrou como a parcela da Saúde no orçamento federal foi decaindo dos 23% no governo FHC até chegar a míseros 13% no governo Lula. Analisou o preço dos procedimentos médicos, sem reajuste desde 1996. Denunciou a crise que se alastra pelo setor. E defendeu com todo vigor dos seus 78 anos o papel civilizatório do SUS (Sistema Único de Saúde). * * * Quando o presidente da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) Paulo Skaf apareceu, em vídeo, criticando a CPMF e os altos tributos, Jatene bateu duro: sem os tributos, quem garantirá a saúde da população? Desmontou cirurgicamente sofismas dos cabeças-de-planilha, tipo “a saúde tem o maior orçamento do País e ainda reclama”. Ora, tem o maior orçamento e o maior desafio. A pergunta a ser feita é: “Os recursos são suficientes ou não para o atendimento?”. * * * Não faltaram críticas contundentes à formação do médico. Nas últimas décadas, multiplicaram-se as especializações médicas. Os cursos de Medicina deveriam passar para os alunos noções básicas de cada especialização, mas para aplicação imediata em ambulatórios e atendimentos de emergência. Em vez disso, proliferaram faculdades sem dispor sequer de um hospital de apoio. Os médicos tornaram-se cada vez mais escravos de uma automação violenta e desnecessária. Admitiu que nunca os diagnósticos foram tão precisos. Mas poderia se chegar ao mesmo resultado com uma formação mais completa dos médicos. Principalmente com um modelo que remunerasse melhor os médicos, permitindo-lhes cursos, aperfeiçoamentos, mais tempo para conhecer e analisar o paciente. * * * O importante é que, apesar da ditadura da Fazenda em três governos - os dois de FHC, um de Lula -, apesar da DRU (Desvinculação de Recursos da União), maneira perversa de tirar dos mais necessitados, o SUS (Sistema Único de Saúde) resiste. Capengando, cheio de dívidas, cheio de problemas, mas resiste. Continua sendo o maior programa social do mundo, um orgulho para o País. CARNE Deputados do Reino Unido renovaram ontem, em Estrasburgo (França), a campanha para que a União Européia proíba por completo as importações de carne brasileira para o bloco, alegando problemas sanitários. A iniciativa é incentivada pelo inglês Neil Parish, presidente da Comissão de Agricultura do Europarlamento, junto com o escocês Alyn Smith, a irlandesa Mairead McGuinness, o norte-irlandês James Nicholson e o galês Jill Evans. Segundo esses deputados, a carne bovina brasileira não cumpre com as normas de segurança sanitária exigidas pela UE, baseando-se na opinião de especialistas veterinários europeus e, especialmente, em um informe da IFA (Associação de Produtores Agropecuários Irlandeses) e no Jornal dos Produtores Agropecuários. Segundo esse estudo, o Brasil não tem um sistema confiável de rastreio da origem do gado cuja carne é exportada. Atualmente a UE aplica um embargo à carne de três Estados brasileiros devido a um surto de aftosa. Mas, segundo os deputados europeus, o gado está sendo contrabandeado das áreas sob proibição para outras partes do País onde a exportação é permitida. Em julho passado, o comissário de Saúde da União Européia, Markus Kyprianou, afirmou que não há motivos para embargar a importação de carne brasileira, como vêm pedindo as associações de produtores da Irlanda e da Escócia. INDÚSTRIA O governo ampliará o alcance da nova política industrial, a ser divulgada no fim do mês. As medidas atingirão também a indústria naval, de equipamentos ferroviários, defesa e saúde. Haverá, ainda, incentivo ao setor de carros e eletroeletrônico. Ontem, o ministro Miguel Jorge (Desenvolvimento) deu novas detalhes sobre o pacote que será apresentado a Lula ainda neste mês. Ao anunciar os quatro novos setores, ele explicou que a intenção é reforçar a indústria para atender a demanda interna e elevar a capacidade de exportação. Para atrair novos investimentos, o governo está disposto a conceder desoneração tributária, usar tarifas de comércio exterior diferenciadas e conceder crédito mais barato. Jorge citou que conversas estão adiantadas com a indústria de grandes locomotivas e de equipamentos de hemodiálise. Nos dois casos, o Brasil importa quase 100% das máquinas vendidas no mercado local. No caso da indústria de equipamentos para saúde e defesa, o ministro do Desenvolvimento lembra também que o governo brasileiro é um grande comprador.

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