O Comércio comemora 92 anos de idade. Quando este jornal surgiu, em 1915, Carlos Pacheco era o maior fabricante de calçados da cidade e cinco anos depois sua produção tornaria-se a primeira mecanizada.
Aparentemente estamos misturando alhos com bugalhos, mas a associação é justificável, pois jornalismo e sapataria são atividades tão antigas em Franca quanto as Três Colinas.
O primeiro jornal de Franca, o Constitucional, circulou em 1859 e logo feneceu, no dizer d’antanho. Sapateiros e seleiros atuavam como autônomos, nem havia oficina, eram ofícios de sobrevivência. Artesanato de couro começa a ter aqui alguma expressão econômica a partir de 1880 e o jornalismo, coincidentemente, também inaugura nesse tempo suas importâncias para a comunidade.
O Nono Distrito marca o aparecimento da imprensa, de fato, na localidade. Foi fundado em 1882 por Gaspar da Silva e César Augusto Ribeiro, dois jornalistas portugueses. Um conterrâneo deles, naquele ano, anunciava às margens do Ipiranga que preferia suicidar a voltar a morar com os parentes (Liberdade ou morte!, teria gritado, uma queixa compreensível em qualquer século e por isso, talvez, lembrada até hoje).
Semanário escrito num estilo elegante, independente ao extremo nas opiniões (rejeitava, por exemplo, anúncio de escravo fugido e acusava o clero pela ignorância encalacrada nesses sertões), o Nono tinha como modelo de atuação os principais periódicos da Europa.
Era impressionante a qualidade desse jornal para apontar as mazelas da comunidade, desde o deserto na urbanização à petrificação do pensamento francano. Chegou a ser comparado pelo vigário e suas beatas como enviado do diabo para atormentar este paraíso incompreendido. Ameaçaram-no com pauladas e ele acabou influenciando a moçada, que passou a redigir pasquins ainda mais infernais.
Naquela década, em janeiro de 1888, Serafim Ferreira Borges lançou as âncoras do artesanato de couro: é dele a primeira empresa de sapatões (botinas) e arreios registrada em cartório e que não balançou logo depois de abrir as portas. Fincou a primeira estaca para a posterior fundação do pólo calçadista francano (os do Val, descendentes de Serafim, ainda preservam a fazenda Jaborandi que ele instalou no município de Cristais Paulista).
Jornalismo e sapataria, por incrível que pareça a muitos, surgiram praticamente ao mesmo tempo em Franca como agentes de transformação cultural e econômica. São pilares do que somos hoje. Dezenas e dezenas de jornais circularam pelas Três Colinas desde 1882. Somados, e cada um com sua devida relevância, tiveram participação fundamental na construção da nossa cidade.
O Comércio da Franca é o representante desse passado e, curiosamente, fecha um círculo de ouro com o primeiro, o Nono Distrito, pelas competências e serviços prestados à comunidade.
É ÓTIMO
Falando em jornal, recebo do gentil Ary Martins um exemplar da edição brasileira, recém-lançada, do Le Monde Diplomatique. Trata-se de um suplemento do periódico francês Le Monde que desde 1954, data do seu lançamento, oferece aos leitores excelentes ensaios sobre os mais variados temas (política, filosofia, literatura, economia etc.). É um armazém de conhecimentos. Leia, se você desconhece a publicação.
DERRAPOU NA CURVA
Wet-blue é um couro praticamente in natura, que recebe apenas um banho de produtos químicos para não deteriorar. Quase nada agrega de mão-de-obra. Sua saída do País é taxada em 9%. Há décadas os calçadistas reivindicam ao governo federal maior barreira à exportação dessa matéria-prima porque, dentre outros motivos, abastece seus concorrentes no exterior.
Espantosamente, o Sindicato das Indústrias de Curtumes de Goiás quer agora a retirada da alíquota de 9% sobre os embarques do wet-blue e acusa a indústria calçadista de tentar ‘transferir sua ineficiência para o setor primário’. A posição da entidade contraria inclusive a do Centro das Indústrias de Curtume do Brasil (CICB), que defende a concentração das exportações nos couros acabados e semi-acabados.
SEM IMPOSTO
Com a recente decisão do governo federal de isentar a importação de couros de ovinos e caprinos, a partir de agora deve aumentar consideravelmente a compra dessa matéria-prima no exterior. A produção nacional ( 7 milhões de unidades por ano), concentrada no Nordeste, não atende a demanda interna, estimada em 12 milhões de peles.
AVALANCHE
A China exportou 4,4 bilhões de pares de calçados no primeiro semestre. O volume cresceu 17,5%, em relação ao do mesmo período do ano passado, e a receita atingiu 12 bilhões de dólares. Deste total de pares, 2 bilhões foram embarcados para os Estados Unidos, no valor de US$ 7,6 bilhões. O preço médio do calçado chinês, que já era imbatível e atordoava concorrência, caiu de US$ 2,8 para US$ 2,7.
SALDO POSITIVO
O faturamento das lojas de vestuário, tecidos e calçados da região metropolitana de São Paulo cresceu 12,1% em julho, na comparação com igual mês do ano passado. Segundo a Federação do Comércio do Estado de São Paulo, o segmento acumula altas consecutivas mensais desde agosto de 2006.
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