Há dois anos, quando a dona de casa Ana Maria*, 38, de Franca, abriu o portão de sua casa e viu a pequena Jéssica*, então com 3 anos, nos braços de uma conselheira tutelar, percebeu que tinha feito a coisa certa. “A emoção foi forte”, disse ela. Nem mesmo a doença da criança (problema pulmonar) fez Ana Maria se arrepender de ter se cadastrado no programa Família de Apoio de Ibiraci (MG). O projeto consiste em encontrar famílias para receber crianças e adolescentes vítimas de maus-tratos dos próprios pais. O programa é desenvolvido em Franca, Patrocínio Paulista e Ibiraci que juntas têm 90 famílias cadastradas e muitas recebem mais de pessoas. Atualmente, 82 jovens vivem com 65 famílias.
O maior número de crianças retiradas dos familiares está em Ibiraci. “Temos 47 crianças vivendo com outras famílias. Cinco delas estão em Franca”, disse a presidente do Conselho Tutelar de Ibiraci, Denise Querino, que informou que a maioria das vítimas são filhas de pais alcoólatras. Jéssica* é uma delas. Apesar da idade, Jéssica* não falava, não andava e não sorria.
Necessitava de cuidados especiais. Ela aprendeu a andar, falar e sorrir. “É como eu tivesse recebido um bebê só que com três anos. Eu a vi dar os primeiros passos e a pronunciar as primeiras palavras”.
Há casos em que a família de apoio se transforma definitiva. A dona de casa de Patrocínio Paulista, Eliane*, 36, recebeu o pequeno Gabriel* com 11 meses. “Ele estava desnutrido e tinha assaduras”, recorda. A proposta do Conselho Tutelar era que Eliane* ficasse com a criança por cinco dias. Lá se vão três anos. A dona de casa adotou Gabriel* depois que a Justiça constatou que a mãe, que tem outros sete filhos e problemas mentais, não tinha estrutura para recebê-lo de volta.
Na mesma cidade, a dona de casa Adriana*, 36, recebeu Bruna*, 2. A mãe, que não cuidava da criança, já tinha perdido a guarda.
Bruna* vivia com a avó que adoeceu. “Eu nunca consegui ter filhos e achei que entrando para o programa poderia ajudar essas crianças”, disse a dona de casa. Quando Bruna* chegou tinha anemia e piolho. Hoje é uma criança saudável. Se ela for colocada para adoção, Adriana*. não pensará duas vezes. “Vou adotá-la”.
*Nomes fictícios
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