Há três meses, Douglas Boorati Marques, 9, sentiu fortes dores na barriga e ficou com o abdômen inchado. Seus pais, a funcionária pública Juliana Boorati Marques, 26, e o policial militar Odimar Marques, 34, levaram o filho ao médico na expectativa de voltar para casa com receita de remédios para gases, mas o diagnóstico foi bem diferente. Descobriram que o garoto, que é filho único, estava com leucemia. As sessões de quimioterapia no Hospital do Câncer de Franca começaram de imediato, ainda em maio, e o tratamento deve prosseguir por mais dois anos e meio.
A experiência foi nova para eles. Esse é o primeiro caso de câncer na família. “Foi um choque, um desespero. Agora o susto está passando e, por incrível que pareça, é o Douglas que tem nos dado forças”, disse o pai. O garoto sabe de todos os detalhes da doença. “Nós e os médicos decidimos jogar aberto com ele, foi melhor. Ele aceita a situação e obedece o tratamento, entende o que não pode fazer”.
Aluno da 3ª série, Douglas precisou deixar a escola desde o início do tratamento. “A quimioterapia deixa a imunidade dele muito baixa, por isso tem de evitar o contato com outras crianças para não ter infecções”, disse Juliana. A criança precisou renunciar também aos jogos de basquete, passeios de caiaque e eliminar alguns alimentos de sua dieta, como iogurtes. “Ele faz tudo certinho. Tem uma vontade imensa de melhorar e não se abateu em nenhum momento, está sempre feliz e brincando”, disse Odimar.
O paciente começou com sessões de quimioterapia três vezes por semana e hoje recebe medicação todo mês, quando precisa ficar internado na Santa Casa. As chances de cura podem chegar a 95%. Os pais e o filho estão esperançosos. “Ele está ótimo e não tem muitos efeitos colaterais. Estamos mais tranqüilos e confiantes”, disse a mãe, que está afastada do trabalho para dar assistência ao filho por 24 horas.
A história da luta contra o câncer em crianças não é vivida apenas pela família de Douglas. Em Franca, o HC atende pessoas menores de 18 anos há três anos e meio e, neste período, os casos de cânceres infanto-juvenis saltaram quase 20 vezes. No início, eram apenas dois pacientes; hoje, o cadastro do hospital tem 36. “Considerando que o atendimento que fazemos abrange toda a região (cerca de 700 mil habitantes), é um número considerável, mas que tende a aumentar, pois o HC está se regionalizando”, disse o oncologista pediátrico Reynaldo José Sant’Anna, responsável técnico da oncologia pediátrica do Hospital do Câncer de Franca.
O especialista associa o aumento dos usuários de 0 a 18 anos a três fatores: divulgação dos serviços do hospital, facilidade de acesso aos diagnósticos e maior incidência dos casos. Os tipos mais comuns tratados na cidade são leucemias - dos 36 pacientes, 15 são portadores dessas doenças -, tumores sólidos no sistema nervoso central, tumores renais, linfomas (tumor que atinge gânglios) e neuroblastomas (ataca o crânio, rins, osso, etc.).
As causas são indefinidas, mas o câncer em crianças e jovens costuma ser relacionado a alterações genéticas, pois, diferentemente dos adultos, pacientes nesta faixa etária não ficaram expostos a fumo, bebidas, má alimentação e outros fatores de risco. “Ocorrem duas situações: os pais podem ter sofrido alterações genéticas em decorrência de exposição e terem espermatozóides ou óvulos modificados e a criança nasce com alteração genética que vai predispor o tumor ou então o próprio filho teve alteração ainda na formação, dentro no útero”, disse o médico.
O tratamento infantil é mais agressivo que nos adultos e costuma durar de seis meses a três anos e meio. “As dosagens das drogas são maiores, pois as células dos tumores são de linhagem diferente da dos adultos e evoluem mais rápido”. Os efeitos colaterais mais comuns são queda dos cabelos, lesões (aftas) na boca, estômago, anemia, surgimento de infecções devido à queda da imunidade e sangramentos.
ALERTA
Segundo o oncologista Reynaldo Sant’Anna, o diagnóstico nas crianças costuma ser retardado, pois os sintomas dos cânceres se confundem com doenças comuns. Alguns sinais podem ser dor nas pernas, febre, manchas brancas nos olhos, marcas roxas pelo corpo, sangramento nas gengivas, surgimento de gânglios pelo corpo (ínguas), dores de cabeça constantes e dores abdominais. “Toda criança tem dor na barriga, que pode ser causada por vermes, intestino preso ou um tumor abdominal crescendo. Isso não significa que toda criança com febre e dores está com câncer”.
O especialista disse que não existem formas de prevenir o câncer na infância e adolescência, mas que as consultas médicas periódicas podem evitar complicações e facilitar a detecção da doença o quanto antes. “O diagnóstico precoce facilita o tratamento e aumenta as chances de resultados de sucesso”. A expectativa de cura é de 70% a 95%, dependendo do tipo do câncer.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) orienta que os pais façam consultas mensais até o sexto mês de idade; depois, a cada três meses e, a partir da faixa etária pré-escolar, semestralmente. “As idas ao médico são importantes para avaliação do desenvolvimento das crianças e para alertas que só os pediatras podem fazer”, disse Reynaldo.
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