Lá vem o negão...


| Tempo de leitura: 3 min
“Lá vem o negão... Cheio de paixão... Te catá, te catá, te catá...” Foi em 1994 que o grupo Cravo e Canela lançou a música “Lá vem o negão”. Pois sempre que vejo as cenas do Supremo Tribunal Federal tratando do caso dos mensaleiros, o refrão volta: “Lá vem o negão. Cheio de paixão. Te catá, te catá...”. Pretendo mandar a música de presente pro Zé Dirceu e seus companheiros. Eles saberão que por “negão” me refiro a Joaquim Benedito Barbosa Gomes, primeiro negro nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal. O ministro Joaquim Barbosa, como relator do processo do “mensalão”, transformou os 40 “suspeitos” em réus por formação de quadrilha, peculato, evasão de divisas, lavagem de dinheiro, etc... Tem gente que vai me tachar de racista por chamar o ministro de “negão”. Não existe outro termo. Ele é negão, sim senhor, um rótulo politicamente incorreto mas impossível de ser substituído. Afro-brasileiro não carrega o afeto que o termo “negão” expressa. Tem que ser “negão” mesmo... Olha o que achei sobre ele, em artigo do Correio Braziliense: “Em 1970, um adolescente pobre de Paracatu (MG) mudou-se para Brasília em busca de estudo. Tinha 16 anos. Conseguiu uma vaga no colégio Elefante Branco. Ia a pé ao colégio. Formou-se e passou no vestibular para Direito, na Universidade de Brasília. Morou em repúblicas. Trabalhava das onze da noite às seis da manhã. Dormia à tarde e estudava entre seis da tarde e dez da noite. Formou-se, fez concurso público e conseguiu fazer mestrado e doutorado na Universidade de Paris. Ontem, 7 de maio de 2003, o menino pobre, filho de pedreiro e dona de casa, voltou a Brasília para ser indicado a um posto na mais alta corte do País. Será o primeiro negro a ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal. Há dez anos, em Paris, perguntado por ministro do Supremo francês sobre suas chances de chegar ao STF brasileiro, devolveu: ‘Nenhuma’. Ligará para dar a notícia.” Que história bonita, não? Ligar a televisão e ver sua figura, o único negro num grupo de brancos a maioria com expressão de supremo enfado , lutando para que a justiça prevaleça, tem sido um sopro de esperança. O Brasil tem jeito, sim. Quem não tem são alguns que se acham acima do bem e do mal. O ministro Joaquim Barbosa, negro de origem humilde, representa referência política e cultural que podemos confiar. De suas mãos podem sair decisões que vão ajudar a colocar o Brasil nos trilhos. E, num momento têm espaço oportunistas, bandidos, aproveitadores e medíocres, o negão Joaquim surge para nos redimir. Para baixar a crista dos que costumam tripudiar sobre a Justiça e a Moral. Pois o negão que se cuide. Junto do Procurador-Geral da República, Antônio Fernando de Souza, está sob os holofotes. Será acusado de “jogar para a platéia”, de ególatra, de golpista e todos aqueles adjetivos que a “turma” usa quando se sente ameaçada. Torço sinceramente para que não apareça um “dossiê” capaz de manchar seu passado. Pois saiba, Senhor Ministro, que o Brasil está a seu lado. O Brasil branco, o Brasil negro, o Brasil rico, o Brasil pobre, o Brasil honesto. O Brasil que o senhor representa. Continue sendo o negão, cheio de paixão, defendendo a dignidade e transformando quadrilheiros em réus. Precisamos de gente como o senhor, sejam elas brancas, amarelas, vermelhas ou negras. Cata eles, ministro. A trilha sonora a gente já tem: “lá vem o negão...” LUCIANO PIRES é jornalista, escritor, conferencista e cartunista

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários