Pressa


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“A verdade espera. Somente a mentira tem pressa” (Alexandru Vlahuta). Esboçava um texto sobre a pressa quando li tal frase no Comércio da Franca, edição de 26/8/07. Caiu como uma luva. Nada mais verdadeiro. Estamos cansados de saber que a pressa é inimiga da perfeição, que o apressado come cru, que devagar se vai ao longe, etc. Mas de uma forma ou outra a gente acaba muitas vezes decidindo ou agindo precipitadamente. Há situações em que as decisões e ações têm de ser imediatas, como no caso do policial que flagra o criminoso, do bombeiro no combate ao incêndio, do médico no atendimento emergencial e até mesmo do pessoal do jornal, que precisa fechar a edição. Nestes casos cada segundo ganho é precioso. Porém, tem questões cuja solução deve ser pensada e repensada. Sabem qual a diferença entre uma decisão tomada já e uma tomada daqui a uma semana? Esta última tende a ser muito mais sábia e justa devido ao tempo gasto para refletir e para procurar enxergar, sopesar, ponderar, considerar a questão de todos os ângulos. Sempre que possível, a decisão por impulso deve ser evitada, sob pena de arrependimento posterior. Dizem que nunca se arrepende de algo que não se falou. Isso é válido em se tratando de coisas que se falam sem pensar, palavras inúteis, ofensivas. Há também o arrependimento pelo que não se falou quando falar era necessário, como no caso de um merecido elogio, de uma indispensável palavra de conforto, de estímulo. Uma coisa, entretanto, é certa: se dá para esperar, se a decisão não precisa ser tomada já, deve-se usar o tempo para raciocinar e tentar chegar o mais próximo possível do bom termo, do justo. Uma parte enorme das tragédias, das doenças decorre da pressa. Pressa de chegar, pressa no comer, pressa no falar. Certa vez, inconformado com a sentença proferida num processo, interpus recurso de imediato e no meu arrazoado lancei várias palavras impensadas, ofensivas mesmo, como se fosse o dono da verdade. Mas, como estava no começo do prazo, deixei o processo na pasta. No dia seguinte, com a cabeça mais fria, entrei no computador e retirei tudo de ofensivo que havia escrito. Bendito computador! Concluí que tinha de respeitar o entendimento do juiz, mesmo dele discordando, e que devia ser profissional e ético acima de tudo. Vitória do tempo. Já percebi que os artigos e crônicas que escrevo às pressas acabam mudados substancialmente numa leitura posterior. Quem aprecia chocolate não mastiga e engole apressadamente. Não. Deixa-o derreter devagar, sente o sabor, prolonga o prazer. Também é assim com aquele vinho e, até mesmo, aquele cafezinho. Um bom livro a gente lê com calma, como que degustando as palavras. Não tenho sabedoria de sobejo. De certas coisas não sei patavina. Por isso me domina um grande desejo de aprender mais, saber mais sobre tudo, sobre o que vejo e até o que não vejo. Mas do pouco que sei, já notei que para tomar decisões mais acertadas, driblar certas dificuldades, é necessário certo traquejo. Afinal, não é a todo instante que surge a idéia brilhante, que vem o lampejo. Nem sempre se está preparado, como dizem, com a faca e o queijo. Além disso, de nada valem boas armas se a gente não sabe usar, não conhece o manejo. A pressa pode levar ao imponderado por não deixar chegar o momento certo, o ensejo. Para traçar rumo, dar definição, chegar à melhor solução, é bom ser esperto, o que é diferente de ser rápido ou apressado. Ser esperto é estar desperto, acordado; é admitir que nem sempre se está certo ou ao menos perto da solução; é saber economizar munição, dosar, manter uma reserva, tal qual o camelo que atravessa o deserto, a céu aberto, sob o sol de verão. Quando a pressa ataca, é preciso ter muito cuidado para não fazer caca. Por isso é necessário esperar. Mas esperar não é ficar parado feito estaca, desperdiçando o tempo com coisas de meia pataca. Esperar é usar o tempo para raciocinar e lapidar com a verdade e a justiça a solução a que se quer chegar. Como dito no começo, “a verdade espera; somente a mentira tem pressa”. PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça e autor do livro Pensando na Vida

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