Sendo Franca essa cidade historicamente literária, de pessoas que produzem textos e livros e também de grandes leitores, talvez seja oportuno publicar neste espaço uma palestra que ministrei na Jornada de Psicologia da Universidade de Franca há alguns meses, e pensar as implicações entre literatura e as esferas psi, indissociáveis em muitos aspectos.
Para a Psicanálise, o psiquismo é estruturado por marcas, representações, leituras da realidade e fantasias que no espaço analítico surgem como pequenos contos, narrativas que construímos para tentar explicar as razões de nossas escolhas inconscientes.
Ao nos narrarmos e tentarmos nos definir pela palavra, também fazemos, de certo modo, ficção, uma vez que aquilo que é interpretado e comunicado não pode abranger toda a realidade. E não é necessário que tenhamos habilidades especiais: todos nós fazemos isso, no dia-a-dia, corriqueiramente.
Talvez venha dessa idéia a afirmação de Freud de que a ficção é o modo pelo qual o homem se constitui. Curiosamente, mais de cem anos depois dessa afirmação, as Neurociências (tão em voga hoje em dia), confirmam o enunciado freudiano. O neuropsiquiatra Kringelbach, da Universidade da Califórnia, disse, em artigo publicado na revista American Scientist: “Não temos acesso a todas as informações nas quais baseamos nossas afirmações. Por isso, criamos ficções. Para racionalizá-las”.
Freud, aliás, admirava os poetas e os escritores de ficção, apontando-os como donos de um saber sobre o homem muitas vezes bem mais facilmente alcançável e direto do que aquele arduamente buscado pelo analista na singularidade da relação analítica.
Assim, a referência literária é uma constante no texto freudiano, que aparece com o objetivo de ilustração de seus conceitos, como facilitador de associações e simbolizações para o conhecimento do inconsciente.
SINERGIA
A pesquisadora Noemi Moritz, em seu livro A Viagem: da Literatura à Psicanálise, sugere que a teoria psicanalítica se inscreve mais no campo da criação literária do que no da pesquisa científica. Sem refutar ou concordar com tal afirmação, talvez seja mais prudente pensar que literatura e Psicanálise se entrelaçam de forma sinérgica.
A influência da psicanálise sobre variados movimentos artísticos é inegável. Do surrealismo inaugurado pelo poeta André Breton, passando pelo pincel de Salvador Dalí, pelas filmadoras de Buñuel e Woody Allen, desaguando nas plumas de Garcia Lorca, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, entre tantos outros artistas e escritores.
No âmbito da criação literária, ao registrar, alterar, embelezar um acontecimento pelo uso das palavras, inventar personagens, novas realidades, despertar medo, compaixão, repulsa, amor, espanto ou curiosidade, o autor busca diferentes formas de ampliar o repertório das possibilidades de pensar o mundo.
Mas porque será que a narrativa, em todos os tempos e culturas esteve presente? “Narrar para não morrer” é, em síntese, a justificativa de muitos literatos para a sua escrita, significando duplamente o temor à morte e o desejo pela posteridade.
Não se pode negar, contudo, que há algo mais nessa onipresença das narrativas na cultura do homem: sem histórias, mitos, ritos, sem as simbolizações, nós nos afastamos da experiência humana. A narrativa, diz a psicanalista Purificación Barcia, da PUC, talvez reflita o medo que temos de perder o humano em nós.
COMPRAR, COMPRAR, COMPRAR
A revista Mente & Cérebro deste mês traz reportagens especiais e artigos muito interessantes sobre consumismo, suas raízes e seus desdobramentos em nossa vida. Num mundo dominado pela economia de mercado, e que não se sustenta mais sem o crescimento da demanda por produtos, as indústrias já sabem que é preciso despertar o desejo de comprar, criar necessidades mesmo naqueles que não precisam do que elas oferecem. Assim, haverá arma mais eficaz do que a imposição de comportamentos pela mídia? Temos que ser lindos, esbeltos, jovens para sempre, bem informados, exalar frescor e felicidade, e as indústrias estão prontas a nos oferecer soluções para cada quesito, certo? Mas quem sustenta, em todos os sentidos, tudo? Na leitura desses textos, é bom atentar também para o fato de que aquilo que escolhemos e aqueles produtos que rejeitamos e também o modo como lidamos com esse desejo e essa rejeição dizem muito de nossa personalidade, do modo como nos relacionamos com o mundo exterior e o interno.
Muitas vezes, nos valemos do consumo desenfreado ou sem critérios como paliativos para lidar com aquilo que em nós sentimos como faltante.
TEMPOS MODERNOS
Sobre essa angústia, diz a editora da publicação, Gláucia Leal: “Vivemos em uma constante expectativa de controle: quanto mais conseguimos prever situações e interferir nelas, mais desejamos fazê-lo. Para algumas pessoas parece insuportável lidar com o imponderável, com o imprevisto e com a falta que por vezes nem sequer é possível nominar.
E, com a imensa quantidade de produtos à disposição nas prateleiras e as demandas fabricadas por especialistas em publicidade e marketing, a angústia é inevitável tanto pela fantasia de que determinados produtos nos farão mais felizes quanto pela impossibilidade de comprar e pelas dúvidas a respeito do que, de como e de quanto consumir”.
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