2 famílias e 1 história


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SEM ESPERANÇA - Alessandra Teixeira (de rosa), seu marido Hercílio de Oliveira, sua irmã Adriana Teixeira e seus filhos Fabíola (à esquerda), Adrieli (ao centro) e Adryel (no colo) são vistos ao lado das panelas c
SEM ESPERANÇA - Alessandra Teixeira (de rosa), seu marido Hercílio de Oliveira, sua irmã Adriana Teixeira e seus filhos Fabíola (à esquerda), Adrieli (ao centro) e Adryel (no colo) são vistos ao lado das panelas c
A costureira manual Sílvia Helena de Souza, 35, e a dona de casa Alessandra Teixeira, 29, não se conhecem, moram em bairros distantes, mas vivem o mesmo drama: são mães, têm filhos pequenos e não sabem o que darão para eles comerem a partir de hoje. Sílvia vive com R$ 80, uma cesta básica doada pela igreja e alimentos que o ex-marido ganha de um varejão para sustentar oito pessoas num mês. “Falta comida aqui. Já passamos fome. Tenho medo disso acontecer de novo porque meu armário está ‘limpo’”, disse ela, que mora no Jardim Alvorada. Na casa de Alessandra, a situação não é diferente. Sopas doadas por religiosos, leite pela Prefeitura e R$ 30 de renda são as ajudas que ela, mais dois adultos e três crianças recebem para passar o mês na casa onde vivem no Jardim Palmeiras. Na quinta-feira à noite, Sílvia cozinhou o resto de arroz, feijão e batata para ela, os seis filhos de 15, 13, 10, 8, 3 e 2 anos e a tia que mora com eles comerem. Ontem, as batatas que sobraram foram consumidas nas duas refeições do dia. Ela ganha uma cesta básica da igreja, mas o macarrão, arroz, feijão, café e demais mantimentos são suficientes apenas para metade do mês. “Dura duas semanas. Para os outros dias, uso os R$ 80 que recebo costurando sapato, mas não dá. Sempre falta alguma coisa, especialmente leite para os meninos”. Carne para a família é artigo de luxo. “Só compro mistura no dia que recebo o dinheiro dos sapatos, uma vez por mês”. O alimento também é raridade nas refeições da família de Alessandra, moradora no outro bairro. Ela disse que comeram o produto pela última vez faz um mês e que isso só foi possível porque tinham ganhado lingüiça e carne de porco da vizinha. Na casa dela, moram ela, o marido, a irmã de 25 anos e os filhos com 7, 4 e 1 ano. As contribuições feitas pelo Centro Espírita, Igreja Católica e UBS (Unidade Básica de Saúde) do bairro evitam que passem mais dificuldades. Mas a ajuda tem sido insuficiente. “Ganho alimentos, mas o leite que recebo da Prefeitura não dá. Eles dão para meu filho menor, mas minha menina de 4 anos quer tomar também. Ela não entende que é para ele. Não dá para os dois”, disse a mãe. A última doação que chegou a eles foi de um pote de sopa preparada pelo Centro Espírita. A comida serviu os moradores em três refeições. “Tenho só um restinho de arroz e feijão para fazer. No sábado, já não sei o que vamos comer. Não tem nada. Aqui em casa falta de tudo”. BENEFÍCIOS Sílvia era beneficiária do programa Bolsa Família e recebia R$ 112, mas disse que a bolsa foi suspensa. “Meu filho não está indo mais à escola porque foi expulso por indisciplina e cortaram o pagamento”. O governo federal exige que as crianças estejam estudando para a família receber o benefício. Em outro ponto da cidade, Alessandra, o marido e filhos também sofrem com o corte do benefício. Até maio, a família recebia R$ 93 do Renda Mínima, programa de transferência de renda da Prefeitura, mas o dinheiro foi suspenso. “No Cras (Centro de Referência e Assistência Social), me falaram que seria cortado porque já fazia dois anos que eu recebia e que não tinha como prorrogar”. Atualmente, Alessandra vive com os R$ 30 do Bolsa Família. O marido e a irmã estão desempregados. “Meu marido tinha emprego num curtume até fevereiro, mas foi mandado embora e de lá para cá, só trabalhou por um mês. O seguro-desemprego (R$ 510) acabou e a situação ficou apertada para a gente viver”. Ela não trabalha porque tem de cuidar dos filhos pequenos e acabou de sofrer nesta semana aborto espontâneo do quarto filho, o que a deixou abalada física e emocionalmente; a irmã não consegue emprego nem o marido. “Queria ter um apoio a mais, conseguir um trabalho para minha irmã e meu marido. Queria dar uma vida melhor para meus filhos, mas não consigo”. E NÃO É SÓ A falta de alimentos não é o único problema na casa do Jardim Alvorada. Há dois anos, os oito moradores do local dividem dois cômodos no fundo da residência da mãe de Sílvia. A hora de dormir é um dos momentos mais difíceis para eles. No quarto, tentam se acomodar cinco pessoas: duas na cama de casal, duas em dois berços e uma num colchão no chão. Na cozinha, são colocados mais dois colchões para dois moradores e um dos filhos de Sílvia dorme na casa da mãe dela. “Fica tudo apertado. A gente não tem como andar nem respirar direito”. As acomodações da família de Alessandra, no Jardim Palmeiras, são melhores, mas nem por isso deixam de sofrer com outras dificuldades além da fome. Com as contas de água atrasadas, o fornecimento foi suspenso na última quinta-feira. Eles estão utilizando água doada pela vizinha, que também ajudou a pagar um dos talões da Sabesp. “Não sei como vamos fazer para a água voltar. O pior é que a luz pode ser cortada porque já tem duas contas sem pagar”. Quem quiser ajudar pode fazer doações para Sílvia na Rua Onofre Di Giácomo, 1700, Jardim Alvorada e Alessandra, na Rua Manoel Higino Leal, 1606, no Jardim Palmeiras.

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