T enho vergonha de mim, por ter sido educador de parte desse povo, por ter batalhado sempre pela justiça, por compactuar com a honestidade, por primar pela verdade, por ver esse povo chamado de varonil, enveredar pelo caminho da desonra.
Sinto vergonha de mim, por ter feito parte de uma era que lutou pela democracia, pela liberdade de ser e ter de entregar aos meus filhos, simples e abominavelmente a derrota das virtudes pelos vícios, a ausência de sensatez no julgamento da verdade, a negligência com a família, célula mater da sociedade, a demasiada preocupação com o eu que visa qualquer custo, buscando a tal felicidade em caminhos eivados de desrespeito para com o seu próximo, tenho vergonha de mim pela passividade, em ouvir, sem despejar meu verbo a tantas desculpas ditas pelo orgulho e vaidade para reconhecer um erro cometido, a tantos floreios para justificar atos criminosos, a tanta relutância em esquecer a antiga posição de sempre contestar, voltar atrás e mudar o futuro.
Tenho vergonha de mim que faço parte de um povo que não reconheço, enveredando por caminhos que eu não quero percorrer, tenho vergonha da minha impotência, da minha falta de garra, das minhas desilusões e do meu cansaço. Não tenho para onde ir, pois amo esse meu chão. Vibro ao ouvir o meu hino e jamais usei a minha bandeira para enxugar o meu suor, enrolar o meu corpo na pecaminosa manifestação de nacionalidade. Ao lado da vergonha de mim, tenho pena, tanta pena de ti, povo brasileiro, de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantar esses poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, de ter vergonha de ser honesto.
Tudo isso foi dito por Rui Barbosa há muito tempo, mas a atualidade de suas falas é incontestável. Muito mais poderia ele ter acrescentado, mas seria desnecessário.
É necessário, a começar de mim, ter vergonha, mas ir além também, buscando resgatar a honestidade, o orgulho de ser brasileiro, francano, justo, íntegro, a confiança num futuro próspero e digno, e, isso, começa na família, que vem sendo destruída pelo divórcio, separação, desemprego, falta de amor e respeito.
Na Festa da Integração da Igreja de São Sebastião e em seu momento mariano, todos os que estavam presentes puderam pedir a intercessão de Nossa Senhora para as famílias, para os problemas, por nossa querida Franca, pelo nosso Brasil, pelos nossos governantes.
Senti vergonha, como Rui Barbosa, mas já comecei a fazer a minha parte. Tenho ensinado ao meu filho que a honestidade e integridade de um homem é o único bem que ninguém pode tirar.
Que a honestidade é conquistada a cada dia, leva muito tempo, mas pode ser perdida em questão de segundos. Tenho, juntamente com a minha esposa, feito de tudo para manter a nossa família sempre unida, apesar dos compromissos que nunca se acabam, dificultando esse convívio da forma que gostaríamos que fosse.
No meu trabalho, tenho procurado buscar a justiça e na sociedade, contribuo com o exemplo e o desejo de ser cada vez melhor no relacionamento com as pessoas, respeitando as diferenças e acreditando que ali está um ser humano que merece toda a minha atenção. Estamos esquecendo que a desonestidade se volta contra nós mesmos.
O preço que se paga é infinitamente alto e não compensa. Eu tenho vergonha, mas essa vergonha me leva a ir além, principalmente a não concordar com essas situações. A você, leva?
ACIR DE MATOS GOMES é advogado com atuação em Tribunal de Júri, corretor de imóveis, adesguiano e palestrante
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