O dono da cidade-estética


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Ao visitar uma amiga numa cidadezinha de outro Estado, a primeira impressão que tive em minha chegada era de um bom lugar para viver. Gente acolhedora e simples de coração, na sua grande maioria formada de operários e lavradores. Avenidas e canteiros centrais bem cuidados, praças arborizadas com gramados aparados e muitas qualidades de plantas ornamentando. Nas pontes que transpunham canais e avenidas, as grades de proteção eram pintadas em cor de destaque. Não pude deixar de observar as guias pintadas de forma intermitente, revezando o cinza do cimento e o branco da tinta nos principais corredores de tráfego do município. Diante do que havia visto, perguntei ao seu Joaquim, meu valoroso guia e tio octogenário de minha amiga. – Seu Joaquim, a cidade parece estar em boas mãos, não? A resposta veio rápida e fuzilante! – Tá nada fiiu... Esse sujeito que tá governano é raposa das véia, chegou aqui uns anos atrais, acolhemo, demo imprego e até esposa filha da cidade conquistô. O sujeito cresceu com a gente, tá bão de situação, tá com o puder di novo, antigamente tamém governô, mais agora, como da outra veiz que prefeitô, cuida só das aparência da cidade, o povo se engana pelo zói, vê essa boniteza de enfeite na matéria e esquece das outras coisa humana. Sê já ouviu aquele ditado: di fora bela viola, pur dentru pão bolorentu?! Pois é... As veiz, uns têm a impressão que temo um bão administradô... O que num procedi, o povo das vila tá sofreno nas coisa mais básica, só que o nosso povo é muito bão-de-simples. Ele (prefeito) acha que é dono da cidade, é pessoa esperta que no passado conquistô confiança; hoje dá uma de brabo e mete medo em todo mundo... Timida desde o reporti da rádia passanu pelo dotô juiz até o promotô. Os nosso vereadô a maioria deles dá té dó de tão capacho que são! (risos) A vil figura governante foi definida muito bem pelo matuto seu Joaquim, cuja sabedoria era de encantar; até órgãos e instituições não foram poupados na sua crítica simplista-caipira; considerando que sua faculdade foi a roça e a enxada afiada que sempre rasgou a terra. Mas, de uma lucidez invejável, sabedoria empírica, caráter incontestável e dignidade construída com trabalho e honestidade. A problematização daquela situação que me deparei fora inevitável. Os contornos da estratégia política do ‘coroné dono da cidade’, foram se desenhando metodicamente num encadeamento de idéias... O sujeito migrante e carente chega à cidade, sendo acolhido por aquela sociedade como um filho; ganha emprego, educação e condições dignas para de um homem. O povo que o recebeu projetou-o publicamente por acreditar no seu perfil diferenciado que inspirava coragem, parecendo ser a opção politicamente ideal para novos e bons tempos que tantos aguardavam... Como já dizia uma grande e ilustre pensadora que tanto admiro e rendo homenagens, ‘primeiro você chega, depois você confunde’. Sofismar é a regra. Estratégias e retóricas ao longo da historia sempre foram usadas com objetivo de sobrevivência individualista galgando posição persuadindo pessoas, até chegar naquilo que se deseja na vida. Não obrigatoriamente têm o estrategista-sofista compromisso em cumprir aquilo antes prometido - pois a vacância de verdade no seu discurso é poderosa atenuante. A percepção que tive na cidade em que visitei, foi de vulnerabilidade perante o indivíduo com mandato executivo enxergando na estratégia do investimento ‘estético’ das praças, avenidas, próprios municipais, pontes e canteiros centrais; o meio de ludibriar causando falsa sensação de boa administração. Na linguagem erudita, um sofista-político-esteticista! Já na linguagem popular, o malandro que nunca pára... Despertar o senso crítico é o segredo para que alguns não se iludam com as aparências de uma cidade, que pode servir como cortina de fumaça para não notarmos a incompetência e possíveis pecados do administrador que tenta sempre pintar um quadro mental na mente dos cidadãos usando do belo de se ver, enganando nossos olhos, que enganam nossa mente e que, finalmente, engana nosso coração. RICARDO VERÍSSIMO JÚNIOR é funcionário público e integrante do Conselho de Leitores do Comércio da Franca

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