O convite para a cerimônia de inauguração da nova sede do Jornal Comércio da Franca levou-me para uma viagem no tempo. A década era a de 60. Estudávamos no Instituto de Educação Torquato Caleiro. Sônia e eu éramos colegas de turmas, no então ginasial, e éramos também vizinhas. Eu morava na Rua Couto Magalhães e ela na Rua Ouvidor Freire. Por esse motivo, sempre íamos ou voltávamos juntas da escola, o que proporcionou nossa aproximação.
Tínhamos algo em comum: éramos muito tímidas e reservadas. Não fomos adolescentes ativas, cheias de falas e gestos. Na verdade, acho que nem éramos notadas em meio a tantos alunos, pois a timidez é, realmente, uma prisão na adolescência. Não tínhamos carro e, naquele tempo, quase ninguém tinha. Fazíamos tudo a pé. Escola, cinema (Cine Odeon ou Cine São Luís), praça, sorvete e só. Esse era o nosso ‘tudo’.
Tínhamos mais uma coisa em comum: a leitura. Não sei de onde, mas sempre arranjávamos livros, romances, José de Alencar (verdade!), M. Delly (era assim mesmo?), enfim sonhos transformados em páginas e páginas que degustávamos com a mesma intensidade que hoje as meninas se empenham para com uma balada.
Tomávamos café na casa uma da outra, quando, porventura, íamos estudar juntas. Nossas mães, sempre prontas, faziam bolos, roscas, pães-de-queijo para alegrar nosso estudo. Mas éramos só nós duas (assim me lembro) e pela própria timidez de ambas, nosso mundinho era um tanto quanto fechado. Acho que nos dávamos bem, mais pelo respeito que cada uma tinha com o silêncio da outra.
Sei que naquele tempo tínhamos sonhos não revelados, guardados numa caixinha colorida e fantasiados pelos personagens dos romances que, às vezes, pareciam reais. Mas não compartilhávamos tudo: existia o medo do ridículo, até mesmo com os amigos mais íntimos. O que o quer que seja que sonhamos, acho que nem de perto nos passaram pela cabeça os caminhos que a vida nos preparou. Esse tempo não foi longo, pois depois nos separamos em cursos diferentes e passamos a nos ver menos. Era um outro período: novos amigos, as primeiras paqueras, namoradinhos. Mas nos reencontramos na Faculdade, ainda que em turmas diferentes, contemporâneas, porém.
Casamos, tivemos filhos e nossas vidas seguiram mais distanciadas. No entanto, um sentimento ficou comigo: sempre que via a Sônia em algum lugar, dava um jeito de cumprimentá-la e dentro de mim ressoava com intensidade ‘Olha a Sônia, minha amiga!’.
O interessante é que este convite me trouxe todas essas lembranças. E eu pude enxergar um desenho muito claro: Sônia e eu trilhamos estradas diversas, mas nos reencontramos nas letras. Somos escritoras, sem nunca termos imaginado isso um dia. Sônia é empresária da comunicação e eu sou ligada à Educação, ofício essencialmente comunicativo. Quem poderia prever esse futuro para aquelas duas menininhas tímidas na adolescência... Sônia vai inaugurar um parque gráfico! É incrível pensar, em termos proporcionais, o que a vida vai nos oferecendo e do que somos capazes.
Trilhamos caminhos diferentes, mas preservamos uma identidade. Pelo que percebo, quando leio seus textos, acho que gostamos dos mesmos autores e nos empolgamos muito com os sons das palavras dos mestres universais. Gosto do que ela escreve e como escreve.
Temos ainda a mesma atitude reservada, ainda que a vida e a profissão nos exijam exposições diárias. Cultivamos o carinho pela palavra escrita, nosso único movimento salvador que resguarda o silêncio indizível, verdade que se revela só e, unicamente, no papel.
Isso explica porque quando vejo a Sônia, alegra-se uma parte em mim que reconhece outra parte que ficou lá trás e que por isso diz: ‘Olha a Sônia, minha amiga!’.
Parabéns, amiga, pelos caminhos que trilhou, pelas conquistas que fez, pelos sonhos que realizou. É bom ter você na minha história.
JANE LÚCIA MAHALEM DO AMARAL é escritora
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