Aos trancos e barrancos


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O rapaz tem 19 anos, é chanfrador habilidoso, inteligente, responsável, cordial. De repente, ficou esquisito, arredio. Está desempregado, não consegue trabalho porque as empresas exigem experiência de cinco anos, comprovada em carteira Nem testam a competência dele. O rapaz aprendeu o ofício aos trancos e barrancos, a partir dos 14 anos de idade, em oficinas prestadoras de serviço. Aprendeu aos trancos porque a pobreza da família o arrastou para o que não queria, não entendia ter de abandonar suas glórias de goleador nos torneios de futebol varzeano. Aos barrancos porque interrompeu os primeiros estudos e as oportunidades que poderia haver no futuro desmoronaram feito as ribanceiras dos córregos de Franca. A mãe do rapaz questiona: o filho tornou-se chanfrador na informalidade, tem pouco tempo de registro, por que não lhe dão oportunidade de demonstrar o que sabe na indústria, se os calçadistas são ex-sapateiros em grande parte e pegaram na enxada antes da convenção de Genebra? Deveriam compreender a situação do rapaz, pela semelhança da origem. Esta senhora imagina que está na Franca dos Palermo (João e filhos), de Pedro Spessoto, dos Maniglia (José, Miguel e Antônio), de Hercílio Avelar e genros (um deles, pai do Coelho da Francal), Antônio Lopes de Mello, Miguel Samello, Hugo Bettarello e centenas de fabricantes que deram origem ao pólo calçadista francano. Esta companhia ilimitada sabia que um jovem candidato a chanfrador, químico, zelador, engenheiro, lixeiro, jornalista, pespontador, médico, açougueiro, mesmo se pós-graduado pela Oxford, Sorbonne, até pela universidade do Cazaquistão, precisa trabalhar para adquirir a bendita experiência. Assim como o pão precisa de fermento e as religiões de crenças, Jesus Cristo! Mas os tempos mudaram e também os entendimentos. Hoje uma baleia pode ser uma melancia. As pessoas sabem distinguir alhos de bugalhos, mas ficam quietas se ouvem disparate de um empregador e precisa da vaga que ele anuncia. Sobra mão-de-obra para as indústrias desde a de couros à de fornicação, para citarmos as mais antigas e daí abundam exigências surrealistas, como a experiência à frente da capacitação. As empresas, no geral, excetuando-se invariavelmente as bem-sucedidas, são tão patéticas na cartilha da contratação que até Albert Einstein seria recusado ao sair da faculdade em Zurique. Teria de sobreviver um bom tempo como pensador. E se daria bem pelo que anotou: “duas coisas são infinitas; o universo e a estupidez humana”. Mas no que se respeita ao universo ainda não adquiri a certeza absoluta. Antes de tentar ser bem-sucedido, tente antes ser um homem de valor. O mundo não está ameaçado pelas pessoas más; e sim por aquelas que permitem a maldade. Nem tudo que se enfrenta pode ser modificado, mas nada pode ser modificado até que seja enfrentado. Einstein diz também, entre dezenas e dezenas de outras sabedorias: ‘A liberação da energia atômica mudou tudo, menos nossa maneira de pensar”. E de agir, tomo a liberdade de acrescentar. EXPONDO EM MADRI Anatomic Gel, Mironneli, Opananken e Sapatoterapia são as quatro marcas de calçados de Franca que participarão da Modacalzado, feira espanhola que ocorrerá em Madri de 27 a 29 de setembro. Juntamente com mais 11 de outras regiões, elas integram o programa Brazilian Footwear, realizado pela associação da classe (Abicalçados) para abrir novos mercados exterior, com o apoio da agência governamental Apex-Brasil. EXPORTAÇÃO DE COURO O Brasil exportou US$ 1,280 bilhão de dólares em couros nos primeiros sete meses do ano. O faturamento cresceu 26,5% em relação ao do mesmo período de 2006. Representou 50% das exportações de carne bovina (US$ 2,5 bilhões) e superou em 15% as vendas externas de calçados (US$ 1,110 bilhão), também realizadas de janeiro a julho. Os dados são do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB). Os embarques de couro semi-acabado (crust) e acabado corresponderam a 64% da receita total. O preço médio das unidades (US$ 63,28) aumentou 29% na mesma comparação. A China (incluindo Hong Kong) permanece como principal compradora do couro brasileiro, com 35% de participação, vindo em seguida a Itália (27%) e os Estados Unidos (10%). Têm aumentado consideravelmente os embarques para a Indonésia, Vietnã e México. E VAMOS NÓS Em uma semana morreram mais três pessoas queridas: Bim, Joviano e Nelson. Juntaram-se a Beto Padeiro, Mário Belo, Zé Maria, Augusto... (a lista é extensa só dos mais recentes). Viraram estrela, dizem os caiapós. Assim sendo, o céu fica mais iluminado a cada dia. Mesmo sendo tão certo que amanhã iremos nós, só deixamos um pouco de lado a mesquinharia com a entrada no hospital. É ELE NA CABEÇA “Resolvo problemas amorosos e profissionais: adultério, desilusão, desemprego, falência. Curo vícios e doenças: jogatina, alcoolismo, viadagem, inveja, mão-seca e demais desorientações. Encontro cachorro perdido e tiro unha encravada. Pai Ambrósio. Tel. 2424 XXXX”, conforme está na internet. Pai Ambrósio soluciona qualquer coisa que nos agoniza. Deveria ser o próximo presidente desta república, que sofre de tudo – especialmente da falta de emprego e da unha encravada.

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