Já pensou em fugir com o circo? Deixar a família, os amigos e o emprego para conviver com outras pessoas, morar em um trailer, ter uma vida itinerante? O motorista Vladimir Augusto, 45, mais conhecido por palhaço “Dica”, está decidido. Colocou nas malas algumas peças de roupas, pares de sapato, uma caixa de maquiagem, guardou tudo em seu trailer e foi embora com o Circo Fantástico, que se apresentou em Franca nos últimos 30 dias. Seu destino: viajar por todo o País e levar alegria para outras pessoas.
O artista é natural de São Sebastião do Paraíso (MG), mas viveu a maior parte da sua vida em Franca com seus familiares. Quando era jovem, conheceu várias cidades e Estados acompanhando outros circos. Na cidade de Capanema (PA) conheceu sua ex-mulher, teve duas filhas e decidiu voltar para Franca. Largou a vida de palhaço, arrumou emprego fixo, construiu uma casa e constituiu família. O casamento não deu certo e as duas filhas voltaram para Capanema com a mãe. “Dica” trabalhava atualmente como motorista em uma transportadora e, sempre que circos vinham para Franca, procurava se apresentar como palhaço. No último mês, chegou à cidade o Circo Fantástico e o artista se apresentou e conquistou a todos com suas performances. Agora, vai fazer o que mais gosta.
“Dica”, praticamente, nasceu no circo e representa hoje a quarta geração de artistas da família - seus pais, avós e bisavós eram artistas circenses. Começou como malabarista, globista, adestrador de animais, trapezista, mas foi na interpretação e na arte de fazer as pessoas rirem que ele se identificou. “Está no meu sangue ser palhaço de circo. Meus pais sempre me ensinaram e me incentivaram desde criança. Já tivemos um circo, o Águias Voadoras e, nele, aprendi a dirigir, soldar, fui mecânico e aprendi também a conviver com o animal mais perigoso que existe: o ser humano. Por estes motivos, resolvi ir embora com o circo”, disse.
Outro motivo que também contribuiu na mudança de “Dica” foi a recente morte de sua avó, com quem morava em Franca. “Ela era minha inspiração. Adorava espetáculos e sempre que vinha um circo para cá, ela se sentava nas primeiras cadeiras de frente ao picadeiro para assistir. Ela faleceu no hospital na minha frente. Foi muito difícil”, disse, emocionado. Para realizar seu sonho, ele deixa vários tios, sobri- nhos e amigos em Franca.
Além de ser criativo e saber lidar com o público, o palhaço também tem que saber improvisar em cima do palco. “Dica” se lembra de uma história que exemplifica o improviso. “Houve uma vez em que chamei uma criança para vir ao palco e, quando ela foi se levantar, caiu no chão de terra porque era paralítica.
Ninguém esperava. Fui até seu lugar, peguei-a no colo e ela sorriu para mim. Levei-a ao palco e não agüentei, comecei a chorar e ela logo que percebeu, disse: ‘O palhaço está chorando!’ Ela enxugou minhas lágrimas e todo mundo que estava lá, nos aplaudiu. Este dia será inesquecível para mim”.
Ontem, foi o último dia de “Dica” em Franca. Ele e o Circo Fantástico seguem agora para Batatais. “Jamais vou me arrepender de ter ido embora com o circo. Apesar de ganhar menos, ser palhaço está no meu sangue. Vou realizar o meu sonho”, finalizou. Em seu antigo emprego, como motorista, “Dica” ganhava até R$ 1,3 mil por mês e, como palhaço, ganhará em média, R$ 1 mil.
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