Tratamento de choque


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Na opinião do bombeiro aposentado Manoel Magela de Toledo, as campanhas de trânsito veiculadas na mídia não têm efeito nenhum para o motorista: “As campanhas são muito leves. É preciso chocar”
Na opinião do bombeiro aposentado Manoel Magela de Toledo, as campanhas de trânsito veiculadas na mídia não têm efeito nenhum para o motorista: “As campanhas são muito leves. É preciso chocar”
<p>Tratamento de choque. Na opinião do bombeiro aposentado Manoel Magela de Toledo, 47, essa é a fórmula para mudar o comportamento dos motoristas e conseqüentemente reduzir o número de acidentes de trânsito. Há oito anos, Magela ministra palestras em escolas e empresas. Nos encontros, ele passa para o público a experiência que acumulou em 25 anos de Corpo de Bombeiros. </p> <p>“Mostro fotos reais de acidentes. A maioria deles eu presenciei durante os salvamentos. Por isso, minhas palestras ganharam a fama de sangrentas. Esse é meu objetivo. Quero chocar quem assiste”.</p> <p><br />Segundo Magela, fotos de vítimas de trânsito deveriam ser espalhadas por rodovias em outdoors chamativos. “Quero ver se o cidadão não vai reduzir a velocidade e mudar o comportamento”, aposta. Para o bombeiro, as escolas também deveriam se envolver no assunto e colocar acidentes de trânsito como disciplina obrigatória e os pais deveriam ser os grandes exemplos. “O filho muitas vezes vai se comportar no trânsito da mesma forma que os pais”.</p> <p><br />Outro assunto colocado em pauta nas palestras de Magela é a campanha apresentada na mídia para reduzir o índice de acidentes de trânsito. Para ele, o foco está errado e não faz nenhum efeito nos motoristas. Toledo afirma que é preciso chocar o condutor e fazê-lo sentir no bolso a conseqüência da imprudência. “É a única coisa que resolve. A gente sempre ouviu falar que é preciso usar cinto de segurança e para não dirigir depois de beber. Isso não adianta. O índice de acidentes continua o mesmo. Tem que mudar o foco das campanhas. Do contrário, cada vez mais gente vai morrer no trânsito”.<br />Confirme os principais pontos da entrevista, concedida com exclusividade ao Comércio.   </p> <p><strong>Comércio da Franca - Como o senhor começou a ministrar palestras?<br />Manoel Magela de Toledo</strong> -Trabalhei no Corpo de Bombeiro por 25 anos e aproveitei para dar aulas de noções básicas de salvamento, combate a incêndio, resgates e primeiros socorros. Sempre fui convidado a fazer palestras nas Sipats (Semanas Internas de Prevenção de Acidentes de Trabalho), mas as exposições voltadas para acidentes de trânsito começaram há oito anos. Como já tinham tratado de direção defensiva e primeiros socorros, resolvi falar sobre acidentes de trânsito. Foi quando tive a idéia de dar um foco diferente. Mostrar a realidade sobre o que pode acontecer com os motoristas caso eles não sigam todas as regras de trânsito. </p> <p><strong>Comércio da Franca - E qual é esse foco?<br />Magela</strong> - Em uma das minhas primeiras palestras nas escolas, um aluno me mostrou um material com estatísticas de acidentes de Franca e de Ribeirão Preto. Ele queria que eu analisasse e desse minha opinião. Foi quando tive a idéia de trabalhar em cima daqueles dados e criei uma palestra diferenciada das formas tradicionais, já que notei que as campanhas educativas têm um foco totalmente errado.</p> <p><br />Percebi que tinha de criar algo que fizesse o condutor, ao se deparar com alguma cena ou frase de impacto, mudar de comportamento. É esse o principal objetivo da minha palestra. Não adianta nada a tecnologia dos veículos e uma cidade bem sinalizada se não mudar a cabeça do condutor. Eu mostro cenas reais de acidentes. Tem até muita gente que brinca dizendo que minhas palestras são muito sangrentas. A minha intenção é mesmo chocar. Evidentemente que também coloco humor. Afinal, com brincadeiras também se ensina. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Acha que para conseguir atenção do motorista é preciso fazer um tratamento de choque?<br />Magela</strong> - Sim. Faço um tratamento de choque. Tem que ser assim. As campanhas para coibir acidentes de trânsito são muito delicadas. Já que não adianta falar e ensinar noções de acidentes de trânsito pelos métodos convencionais, então tem que ser radical.  Um exemplo: nos fins de semana, o número de acidentes de trânsito costuma aumentar por conta da quantidade de veículos que vão rodar e pela quantidade de álcool nas vias sanguíneas do condutor.</p> <p><br />Imagina, então, se um policial ou bombeiro em véspera de feriado fosse à televisão ou jornal e falasse da seguinte forma: “Como não adianta falar para dirigir com cinto de segurança e não correr muito, vamos fazer o seguinte: se você se envolver em acidente de trânsito, basta ligar para o Corpo de Bombeiros que teremos viaturas à disposição. Você vai ficar imobilizado e terá monitoramento até o hospital, onde terá uma equipe médica. Se acaso sobreviver com algum braço ou perna quebrada, vai sair do hospital engessado. Se perder algum membro no acidente, não tem problema: há boas casas ortopédicas. Se perder uma perna, é só arrumar uma prótese. Se não conseguir andar mais, tem cadeira de rodas e colchão de água”. Então continuo: ‘Você sobreviveu. Que bom. Só que vai dar trabalho para a família”. Também falo de caixões e de funerárias, de como pode ser o velório. É um tratamento de choque mesmo. </p> <p><strong>Comércio da Franca - O que acha do Código Nacional de Trânsito?<br />Magela</strong> - O Código está correto. As leis já existem, só falta cumprir. Se houver o cumprimento e aplicação das leis como está na legislação, com certeza os acidentes vão diminuir. É preciso, evidentemente, aliar as leis a educação e mudança de comportamento do motorista. É preciso ser rigoroso na aplicação e fiscalização. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Contar pontos na carteira depois de uma infração contribui para conscientizar o motorista?<br />Magela</strong> - Não. Nem todos os motoristas ligam para os pontos que podem acumular na CNH (Carteira Nacional de Habilitação). Nem todos lembram que ao se acumularem mais de 20 pontos perdem o documento. O condutor só sente quando pesa no bolso. Por isso, não adianta ficar falando a todo momento para o cidadão usar o cinto de segurança, respeitar as leis de trânsito, essas coisas que ouvimos todos os dias. </p> <p><strong>Comércio da Franca - O senhor acha que os radares contribuem para a redução de acidentes de trânsito?<br />Magela</strong> - Na minha opinião, os radares resolvem em parte. Ele não resolve todos os problemas, mas ajuda porque coloca medo no motorista, e o que toca no bolso sempre resolve. Nas vias onde havia radares, porém, independentes de estarem ligados ou não, os acidentes não existiam, então não há forma de comparar diretamente, já que o índice de acidentes, nos locais, continuou na média. O que aumentou foram as ocorrências em outros lugares. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Neste ano, 51 pessoas morreram vítimas de acidentes na região. Como o senhor analisa o dado?<br />Magela -</strong> É alto. Falo sempre nas minhas palestras que não adianta o motorista ter um veículo moderno com muita tecnologia senão mudar o comportamento. E não é por falta de sinalização. Franca é uma das cidades mais bem sinalizadas que conheço. O grande problema do alto índice de acidentes na cidade é o comportamento do motorista. O motorista francano é muito ruim.<br />O número de acidentes tem crescido em todo o País e em Franca não é diferente, principalmente em fins de semana prolongados e de festas. É quando o fluxo de veículos nas rodovias é bem mais alto. Além disso, as pessoas ingerem mais bebidas alcoólicas. Alcoolizados e com as rodovias mais cheias, a situação só se agrava. </p> <p><strong>Comércio da Franca - A maioria dos acidentes de trânsito acontece por causa da bebida alcoólica?<br />Magela</strong> - Noventa por cento dos acidentes que já presenciei em todos esses anos que trabalhei como bombeiro foram devido a bebida alcoólica. Não importa a idade. A maioria das pessoas quando bebe fica mais corajosa e abusa no volante. Quantas e quantas vezes presenciei familiares retirando latinhas de cerveja de dentro do carro depois de um acidente? Foram muitas. </p> <p><strong>Comércio da Franca - O que poderia ser feito para mudar isso?<br />Magela -</strong> Antigamente quando a gente passava pelas estradas, via cruzes no decorrer das rodovias que indicam que ali morreu alguém de acidente. O motorista acabava tirando o pé do acelerador. E por que ele fazia isso? Por medo da morte. Por isso digo que as campanhas estão erradas. O que sempre ouvimos nas campanhas sobre acidentes de trânsito? Se beber não dirija, se dirigir não beba. Respeite a sinalização de trânsito e não corra. Isso não adianta. Colocar adesivo em veículo com frases sobre acidentes de trânsito? Ninguém vai ler.</p>

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