A imagem é revoltante. Na frágil perna esquerda da criança de apenas sete meses, três marcas de queimaduras. Seria difícil até mesmo para um adulto suportar. Não é só. Nas costas, vários hematomas resultados de beliscões. Mais revoltante, ainda, é saber que o causador dos ferimentos foi o próprio pai da vítima.
O lavrador Samuel Henrique dos Reis Aquino, 24, usou um isqueiro para colocar fogo na filha. Ele se enrola e é contraditório ao tentar justificar a selvageria. Foi indiciado por tortura, mas continua em liberdade. Está plantando alface.
O palco da violência, uma casa de apenas três cômodos situada no bairro da Cohab em Itirapuã. Eram 18h30 e já estava escurecendo. Lucinda Souza Freitas, 19, saiu para pagar contas do marido e deixou a filha sozinha com o pai. Era normal fazer isso. Pouco antes da 19 horas, Samuel pegou a criança no colo, foi até a cozinha e acendeu o isqueiro. “Ela tava no meu colo, né? E aí, começou a chorar um pouquinho. Daí, fiz isso: cheguei o isqueiro e encostei na perna dela. Foi só uma vez, só. Mais do que isso, não. Também dí uns beliscão nas costa dela. Quando começou a chorar, pus ela no berço”.
Quando a mãe chegou em casa, a filha já estava dormindo. Teria observado as lesões somente na manhã do dia seguinte ao trocar as fraldas. “Levei um susto ao ver as bolhas. Esperei meu marido chegar do serviço e perguntei o que tinha acontecido. Ele falou que não sabia. Falei que ia levar a neném no médico, mas ele não quis. Disse que era para deixar daquele jeito”.
Familiares ficaram indignados e denunciaram as agressões ao Conselho Tutelar. “Ao constatar a gravidade dos ferimentos, chamamos a polícia imediatamente. Chegamos a fotografar as lesões para comprovar a violência. Ainda hoje ao ver as imagens ficamos revoltados”, conta o conselheiro Edmar Naves. A criança foi medicada no hospital da cidade.
As agressões foram cometidas no dia 9 e começaram a ser apuradas no dia seguinte pela Polícia Civil de Itirapuã. A princípio, o caso foi registrado como maus-tratos/lesão corporal, crimes considerados de menor potencial. “Encaminhamos a vítima para ser submetida ao exame de corpo de delito e ouvimos o autor das agressões, a mãe e algumas testemunhas. Com base nas informações apuradas, determinei o indiciamento dele pelo crime de tortura”, explica o delegado Manir Martos Salomão.
Como não foi pego em flagrante, Samuel deverá aguardar a conclusão do inquérito em liberdade. Segue tocando a vida normalmente e dividindo o mesmo teto com a filha. “Estou analisando a possibilidade de pedir a preventiva para que o autor aguarde preso. Vai depender do comportamento dele”, finalizou o delegado Manir.
Lucinda continua morando com o marido, mas já deu entrada no pedido de separação. Ainda com as marcas da violência no corpo, a criança, que não chegou a ser internada, se recupera bem.
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