Quando criança eu adorava a semana do folclore. Quase sempre tínhamos atividades interessantes sobre os principais personagens de nossa cultura. Alunos, professores e funcionários envolviam-se numa semana de muito aprendizado e desenvolvimento humano. Saci-pererê, curupira, boitatá, mula-sem-cabeça, negrinho do pastoreio, boto, eram figuras que povoavam nossas mentes, provocavam frio na espinha e nos faziam rir.
Passados muitos anos, resgatei a semana do folclore em minha mente por conta de minha filha que feliz contava, em casa, o que tinha aprendido na escola.
Então me pus a pensar como era bom ser criança. A gente tinha medo do saci-pererê, do curupira, do boitatá, da mula-sem-cabeça, do negrinho do pastoreio, do boto, mas no final a professora sempre dizia que tudo era parte do folclore, não passava de lenda.
Especialmente nesta semana senti saudades dos medos que sentia quando era ainda criança, eram medos ingênuos, pudicos, inocentes.
Hoje nem o saci-pererê, nem o curupira, nem o boitatá, nem o negrinho do pastoreio, nem o boto são capazes de provocar em mim aqueles medos de antigamente.
Para falar a verdade só há uma coisa do folclore que ainda me causa medo - a mula-sem-cabeça. É impressionante o medo que tenho dela. É mais forte do que eu, me perturba o dia todo, me tira o sono, me dá um frio na espinha só de pensar.
Confesso que tenho até rezado para que alcance uma graça e me livre desse pavor terrível a fim de poder continuar minha vida sem sustos, com segurança, olhando para o futuro sem hesitar, mas, mesmo assim não está sendo fácil. Pensei até em procurar um especialista, um médico, um terapeuta, sei lá, alguém que me faça acreditar que a mula-sem-cabeça é lenda, que é folclore, mas acabei desistindo.
Na tentativa de me livrar da tensão provocada por esse medo tenho lido muito, não sobre folclore, muito menos sobre mula-sem-cabeça. Tenho lido sobre coisas reais, principalmente sobre o Brasil de nossos dias. Em minhas leituras encontro fatos do dia-a-dia que talvez possam mudar um pouco minha mente e me fazer esquecer o medo que tenho da mula-sem-cabeça.
Li, por exemplo, que no caso do acidente do avião que matou cento e noventa e nove pessoas a polícia já prendeu o dono do bordel. Li também que a CPMF, que era provisória e seus recursos para a saúde, nem é tão provisória assim e que nem tudo que é arrecadado é para a saúde. Ainda sobre a CPMF li que o deputado Palocci será relator do texto para a prorrogação do tal imposto até 2011.
Li que em Alagoas uma brasileira, cidadã, em pleno gozo de seus direitos, morreu à espera de uma cirurgia cardíaca, adiada por conta de uma greve de médicos que já dura mais de dois meses. Li que a greve dos médicos é porque eles recebem pouco mais de setenta reais por uma cirurgia cardíaca.
Compreendi então que meu medo não tem como causa a lenda da mula-sem-cabeça. Meu medo tem como causa a percepção de que no Brasil mula-sem-cabeça existe de fato.
ALEXANDRE HENRIQUE LEONEL é farmacêutico e integra o Conselho de Leitores do Comércio
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