Corações distantes


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Cristian Ferreira, 21, subgerente do Peixinhos Bar, enche um copo com chope. Jovem saiu do Paraná para melhorar de vida em Franca: "Aqui é mais promissor"
Cristian Ferreira, 21, subgerente do Peixinhos Bar, enche um copo com chope. Jovem saiu do Paraná para melhorar de vida em Franca: "Aqui é mais promissor"
Só em 2004, mais de 3400 migrantes chegaram a Franca, segundo dados do Ipes (Instituto de Pesquisa do Uni-Facef). O fenômeno se repete ano a ano. São milhares de pessoas que deixam suas cidades e se mudam para cá na expectativa de viver melhor. Além de terem de se adaptar à nova vida, precisam lidar com a saudade. A distância, na maioria das vezes, impede contatos pessoais e até por telefone. A dona de casa Edinaura Silva, 40, estava com 18 anos quando partiu de Bayex, na Paraíba, para tentar conseguir emprego em Franca. “A gente ouvia dizer que toda cidade em São Paulo tinha serviço, principalmente aqui. Arrumei a mochila com três trocas de roupas e tomei o ônibus. Nunca mais voltei a minha terra”. No Nordeste, ficaram seus pais e cinco irmãos. “A vida sempre foi difícil na Paraíba. Sou de uma família muito pobre. Nunca tinha conseguido trabalho lá. Aqui consegui emprego como faxineira, mas logo casei e tive meus filhos”. Durante os primeiros anos longe de casa, Edinaura se correspondia por carta com os familiares. As mortes dos quatro irmãos, por exemplo, foram anunciadas assim. “É muito difícil estar longe. Sinto até hoje não estar nos velórios com meus pais”. Hoje ela usa o telefone para saber notícias. A dona de casa costuma telefonar para os pais de três em três meses. Liga do orelhão para uma vizinha da Paraíba. “Ultimamente, tenho falado apenas com meu pai. Minha mãe ficou muito doente e não tem forças para conversar comigo”. Edinaura não tem dinheiro para visitar os parentes. “É caro. Estou desempregada e só agora um dos meus filhos conseguiu emprego, mas temos muitas dívidas para pagar. Meu sonho é abraçar meus parentes de novo. Rezo todos os dias e peço a Deus para me ajudar a voltar e ver meus pais”, disse, chorando. Ela não se recorda a idade certa, mas acredita que os pais estejam com 60 anos. “Gostaria muito que meus pais conhecessem meus filhos e meu neto, mas acho que não conseguirei levar todo mundo”. Joel Nascimento, 20, é outro que deixou as raízes nordestinas para tentar melhorar a vida no Estado mais rico do Brasil, São Paulo. Está em Franca há apenas seis meses. Saiu de Camocim (CE) em fevereiro e depois de enfrentar 48 horas de ônibus chegou a Franca para trabalhar como garçom no Peixinhos Bar. O jovem trouxe consigo a vontade de melhorar de vida e deixou para trás os pais, três irmãos, amigos e a ex-namorada. Joel ainda não voltou para casa e não deve fazê-lo tão cedo. Ele só deve voltar ao Ceará se for para ficar lá para sempre. “É uma viagem muito cara, demorada e sofrida. Também fico meio inseguro de ver minha família, minha casa, meus amigos e não querer mais largá-los”. [FOTO2] Enquanto não pode ver ao vivo os familiares, tenta amenizar a saudade com a única foto que trouxe deles e com telefonemas uma vez por mês. Seus pais moram na roça e não têm telefone. Para falar com eles, liga de um orelhão para a casa de uma colega e agenda a próxima ligação. “Ligo uns três dias antes e marco o dia e horário que vou retornar para meus pais irem até a casa da minha colega. Ela mora a três quilômetros da fazenda. Quando ligo, gasto uns dois, três cartões para contar as novidades”. Joel disse que sentirá mais falta de quem ficou no Nordeste no dia 13 de dezembro, seu aniversário. Todos os anos, ele comemorou a data ao lado dos amigos e, desta vez, passará em Franca. “Vai ser difícil esse dia”. Cristian Ferreira, 21, divide o alojamento e mesmo local de trabalho com Joel. Trabalha como subgerente no Peixinhos Bar. Em junho de 2005, decidiu sair de Santo Antônio do Paraíso, no Paraná, para viver em Franca. “Queria melhorar minhas condições financeiras. Tentei ir para os Estados Unidos e trabalhar lá, mas o financiamento da viagem não deu certo. Me mudei para cá e não me arrependo”. Cristian, ao contrário de Joel, conta com a tecnologia para manter contato com os conhecidos que continuam no Sul. Ele liga para os pais uma vez por semana e acessa a internet para contatar os amigos pelo Orkut e MSN. Em dois anos, Cristian retornou ao Paraná três vezes e se prepara para a viagem de setembro. “Faço reservas para conseguir viajar. É bom rever os parentes”. No começo, foi mais difícil se acostumar com a distância, hoje, o jovem pensa diferente. “Nos primeiros dias, fiquei desesperado e tinha de voltar sempre para casa. Agora não. Sinto saudades de Franca”, disse ele, que já foi promovido no serviço e, com o salário, comprou uma moto zero, DVD, TV e celular. “Cheguei só com uma mala, mas vou precisar de um caminhão para levar tudo embora”, brinca.

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