Um cidadão de nome Richarlyson, que por coincidência do destino é jogador de futebol, pagador de impostos como todos nós, sentiu-se ofendido por ter sido chamado de homossexual, e buscou a justiça para processar criminalmente o ofensor. Sem adentrar ao mérito se houve ou não algum crime contra a honra, a repercussão do caso surgiu porque o juiz da 9ª Vara Criminal do Foro da Barra Funda, na capital paulista, Maximiano Junqueira Filho, proferiu sentença de cunho evidentemente discriminatório, explicando que “futebol é jogo viril, varonil, não homossexual”, e que “o que não se mostra razoável é a aceitação de homossexuais no futebol brasileiro, porque prejudicariam a uniformidade de pensamento da equipe, o entrosamento, o equilíbrio, o ideal... Para não se falar no desconforto do torcedor, que pretende ir ao estádio, por vezes com seu filho, avistar o time do coração se projetando na competição, ao invés de perder-se em análises do comportamento deste ou daquele atleta, com evidente problema de personalidade; desconforto também dos colegas de equipe, do treinador, da comissão técnica e da direção do clube”. As conseqüências dessa infeliz decisão foram as piores possíveis para o magistrado: o Tribunal de Justiça (TJ/SP), por unanimidade, em 16 de agosto último, decidiu que ele deve apresentar defesa prévia num procedimento que pode culminar num processo administrativo, e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) requereu informações sobre a sentença, o que pode resultar no seu afastamento do cargo. Após a polêmica, o juiz pediu licença de suas funções e o pedido do ofendido será novamente julgado pelo Juizado Especial Criminal.
Interessante a relevância que alguns dão à sexualidade do outro, o que se constitui em evidente invasão à vida privada. Só para não fugir dos exemplos nacionais, será que alguém duvida da genialidade de mestres do quilate de Santos Dumont, de Cazuza, de Renato Russo, de Gilberto Freire, de Mazaroppi, de Pedro Nava, de Olavo Bilac ? Será que, por gostarem de pessoas do mesmo sexo, seus legados têm menos valor ? Evidente que não. O preconceito dos que entoam brados contra os homossexuais, bem como contra quaisquer outras pessoas, sejam elas prostitutas, índios, travestis, negros, etc., revela o quão difícil é a evolução de uma sociedade no sentido de se permitir aos seus indivíduos serem efetiva e verdadeiramente livres, o que pressupõe conviver pacífica e harmoniosamente com a diferença.
Este o verdadeiro espírito democrático. Uma pessoa, qualquer pessoa, deve ter o seu valor aferido pelo seu trabalho, pela competência com que desempenha o ofício que escolheu para viver, sem nenhuma ponderação subjetiva.
Nosso mundo não é gay. Apenas tem caminhado a passos largos à tolerância, mãe da paz e harmonia entre homens e mulheres, independentemente da cor da pele, da religião que sigam, ou da orientação sexual, ainda que vez ou outra aconteçam alguns tropeços, como o cometido pelo juiz paulista. Cuidar da própria vida já é difícil, se preocupar com a dos outros, então, não faz sentido.
Quando vou ao estádio com meu filho, não me importo com a cor da pele dos atletas, nem com suas preferências sexuais e muito menos com a religião que professam: quero apenas ver um bom futebol. E quanto à sexualidade do Richarlyson, francamente, o que faz em sua vida particular não me importa. O que vale é que é um excelente jogador e que marca muitos gols para o meu time do coração. Em tempo: meu filho é corintiano.
VLADIMIR POLÍZIO JÚNIOR é juiz e professor de Direito
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