A desapropriação de uma residência no Parque do Horto, na tarde de ontem, terminou em muita confusão, bate-boca generalizado e a presença da Polícia Militar durante mais de quatro horas no local. No final, após a retirada dos pertences dos moradores e o registro de dois Boletins de Ocorrência, a situação continuou indefinida e deverá ser sanada somente hoje, com intervenção da Cohab de Ribeirão Preto.
O proprietário despejado, o carpinteiro Júlio César Fernandes, 22, prometeu ficar de plantão na porta da casa até que tudo seja resolvido. Já o novo dono, Rodrigo Mendes Oliveira, munido de autorização da Cohab de Ribeirão Preto, prometeu que ocuparia o imóvel de qualquer forma. Os policiais que atenderam à ocorrência disseram que, se ocorresse nova confusão, iriam todos para o Plantão Policial.
A encrenca começou pouco depois das 15 horas, quando uma oficial de Justiça se dirigiu à Rua José Mafas, de posse de uma reintegração do imóvel localizado no número 808. Fernandes disse que não havia sido notificado do despejo e que não sairia. Com apoio da PM e de carregadores, a oficial (identificada apenas como Ana Lúcia) retirou móveis e objetos do local e trocou até a fechadura, mas os moradores não arredaram o pé.
O que esquentou ainda mais o clima foi a chegada de Oliveira, o novo morador, que parou seu carro em frente à garagem e, com a chave em mãos, queria ocupa a casa. O carpinteiro, inflamado por vizinhos, decidiu não arredar o pé. “Imagine, estou há mais de três anos tentando negociar e, de repente, mandam vir aqui e jogar tudo na casa de um vizinho, como se fôssemos animais”, disse Fernandes, que pagou R$ 4,5 mil pelos direitos do imóvel. “Minha vontade era de pagar, mas queriam fazer prestações de quase R$ 500. Aí, não dou conta”.
A mulher do carpinteiro disse não ter como deixar a casa, pois a família não teria para onde ir. “Além de nós, moram com a gente meus três filhos e meu neto. Para onde vamos agora? Não podemos dormir na rua”, disse a segurança Adriana Inês de Souza.
Já Rodrigo disse não ter nada a ver com toda essa situação. Ele portava uma carta da Cohab (em papel timbrado, mas sem carimbos da empresa) e queria ocupar a casa. “Não estou tirando ninguém. A Cohab me chamou porque tinha saído uma residência para a gente. Não tenho nada com isso”, disse.
O sargento Posterari, da PM, afirmou que tais situações são complicadas, por envolver, além do imóvel em questão, a parte emocional. “Nunca é fácil, pois uma família está sendo despejada. Mas o entendimento é sempre o melhor caminho”, disse. “Se houver algum tipo de confusão, a PM intervirá”.
NEGÓCIO DA CHINA
Por incrível que pareça, há quem goste desse tipo de confusão. São alguns proprietários de caminhão que atuam como “puxadores” de mudanças.
Contratados pela Cohab para retirar os bens das famílias despejadas, costumam combinar, com as mesmas pessoas, a devolução dos móveis caso estas resolvam reinvadir a casa. Assim, ganham dois fretes em um só endereço.
Ontem, quando retirava os pertences de Fernandes, um dos homens deu um cartão de visitas a ele oferendo o serviço. “Ele falou que depois das seis da tarde me ajudava a pôr tudo de volta no lugar”, disse o carpinteiro.
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