Desvalorizar o real


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Anos atrás fui a um evento na Federação das Indústrias de Santa Catarina. Lá, foi apresentado o caso da Marisol, uma indústria têxtil catarinense que havia montado uma rede de lojas em todo o Oriente Médio. Estava exportando seus produtos - roupas para crianças - e pensava em transformar as lojas em ponto de vendas de outros produtos brasileiros. Ontem, li nos jornais que a Marisol fechou algumas fábricas, despediu 800 empregados e resolveu implantar um método Toyota de redução de custos. Não resistiu ao dólar barato, nem nas exportações nem no mercado interno. Provavelmente, continuará bolando produtos por aqui, mas terceirizará a produção para a China. O caso Marisol é emblemático da perda de rumo da economia brasileira. Há vários modos da economia crescer. Em um mundo globalizado, com as economias nacionais cada vez mais abertas, enfrenta-se uma competição cerrada com o exterior. Se uma empresa perde competitividade, é derrotada não apenas no mercado externo, mas também no interno. Além disso, as empresas expostas à competição externa se tornam a vanguarda das inovações em qualquer economia. Elas puxam a inovação, a criatividade, os novos métodos de produção, a melhoria da qualidade. Justamente por isso, todos os grandes movimentos de desenvolvimento modernos tiveram por base a competição no mercado externo. E, como primeiro passo, uma moeda competitiva. Isto é, um câmbio desvalorizado. Foi assim com a Alemanha, Itália e Japão no pós-guerra, com a Coréia nos anos 60, com a Itália nos anos 90, com a China. O câmbio desvalorizado serve para compensar as vulnerabilidades iniciais da economia. Não há infra-estrutura, o sistema tributário é inadequado, não há condições para investir em alta tecnologia? É a moeda desvalorizada que permite ao produtor interno colocar um produto lá fora tendo como vantagem o preço mais barato. Em 2003, logo após a grande desvalorização cambial de 2002, centenas de pequenas empresas brasileiras passaram a competir com produtos com componentes tecnológicos, valendo-se do fator preço. Ofereciam quase a mesma coisa dos líderes de mercado a um preço muito menor. Se a desvalorização cambial houvesse se mantido, elas aumentariam suas vendas, seus lucros. E, em um segundo momento, passariam a investir em mais tecnologia, inovação, galgando a escala de qualidade dos produtos globais. Esse movimento - o mesmo que levou a Marisol a montar sua rede no Oriente Médio - foi abortado pela revalorização do real, promovida pelo governo Lula na gestão Antonio Palocci, e que prosseguiu na gestão Guido Mantega. Com a apreciação cambial, apenas os grandes grupos, que atuam em áreas de matéria-prima, conseguirão competir. O conjunto da economia perde. Todos os países que se desenvolveram - desde a Inglaterra, no início da Revolução Industrial - tinham por princípio importar matéria-prima e exportar produtos acabados. Agora, quando a crise ameaça corrigir os erros do câmbio, é bem provável que, passado o maremoto, o Banco Central volte a apreciar o real, dentro de sua missão pertinaz de matar o futuro. CARTÕES O crescimento do parcelamento das compras com cartão de crédito por meio do rotativo (o pagamento de uma parcela da fatura) e do realizado diretamente com os emissores dos cartões mostra que o dinheiro de plástico está sendo usado como um meio de financiamento, não só de pagamento. Segundo levantamento da Abecs (Associação Brasileira de Empresas de Crédito e Serviços) com dados do Banco Central, referente ao mês de junho, esse tipo de financiamento cresceu 21% em relação ao mesmo mês de 2006. A Abecs estima que essas transações compõe 20% do volume movimentado pelos cartões de crédito, podendo chegar a R$ 36 bilhões, de acordo com as estimativas para o mercado em 2007. Considerando o parcelamento direto com o lojista, que não entrou na pesquisa, a participação dos financiamentos pode chegar a 60% das operações, segundo o diretor de marketing da Abecs, Antonio Rios. Segundo essa conta, os financiamentos serão R$ 108,96 bilhões das vendas estimadas no cartão de crédito em 2007, de R$ 181,6 bilhões. Para o presidente da Abecs, Jair Scalco, o setor vive um momento de transição do cartão como meio de pagamento para de financiamento, buscando aumentar as formas de concessão de crédito. “Os emissores estão estudando como dar mais crédito para os portadores”. PETROBRAS Orçado originalmente em US$ 650 milhões, o custo final da plataforma P-54 estourou em 38% e ficou em US$ 900 milhões. A unidade foi batizada ontem e começará a operar em outubro deste ano, no campo de Roncador, na bacia de Campos, norte do Estado do Rio. O diretor de Exploração e Produção da Petrobras, Guilherme Estrella, disse que o custo mais elevado é algo natural em toda a indústria de petróleo, que vive um forte aquecimento de preços de bens e serviços. O diretor considerou o aumento de custo “aceitável”. Estrella acredita que no próximo ano a escalada dos preços de serviços e insumos da indústria petrolífera vá arrefecer. “Os custos já subiram tanto que começam a inviabilizar alguns projetos. Isso não deve continuar”, afirmou Estrella. A P-54 foi construída em três anos e cinco meses - oito meses a mais do que a projeção inicial. Estrella ressaltou que, apesar da dilatação do prazo, trata-se da menor marca de plataformas desse porte construídas pela Petrobras. A P-54 tem capacidade de produção de 180 mil barris de óleo por dia, volume a ser alcançado em seis meses após o início da operação.

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