‘Viajar cansa, mas essa vida é gostosa’


| Tempo de leitura: 2 min
Ficar longe de casa por nove meses (entre maio e fevereiro); não ver os filhos com freqüência; passar datas importantes, como Natal e Réveillon, longe da família; não ter residência fixa; trabalhar 12 horas por dia, de domingo a domingo, e viajar cerca de 8 mil quilômetros por temporada. Essa é a rotina das pessoas que decidem vender produtos nordestinos em outros cantos do País. A artesã Regina Marques, 35, e o marido, Vicente Marques, 38, levam essa vida há 15 anos. A tradição é familiar. Dos 12 irmãos de Regina, cinco trabalham como artesãos e vendedores da Cooperativa de Rendas e Bordados do Ceará. Os filhos do casal, de 10 e 8 anos, passam praticamente o ano todo com a tia e a avó e só reencontram os pais durante as férias ou quando a temporada de vendas termina e eles regressam para Fortaleza. “Quando não têm aulas na escola, viajam com a gente de cidade em cidade. A saudade é grande, mas temos de trabalhar”, disse a mãe. Para ela, o trabalho nômade tem vantagens, como a oportunidade de conhecer lugares e pessoas diferentes. “Não ganhamos muito com essa profissão, mas o suficiente para sobrevivermos. O lado bom é poder visitar muitas cidades. Se fosse para passear, não viajaria para tantos lugares como faço trabalhando”, disse Regina. A vendedora Maria Eugênia de Lima, 36, também está com mais de uma década de estrada. Ela, que estudou até a 8ª série, já foi garçonete, vendedora em Fortaleza e trabalhou com castanhas, mas, há 14 anos, resolveu aderir à caravana de artesãos e se apaixonou. “Gosto do que faço. Trabalhar com o povo e fazer amizades novas é muito bom. Viajar cansa, mas essa vida maluca é gostosa”. O salário de R$ 600 mensais também a satisfaz. “Mulher, vou lhe dizer, por onde passo, faço a festa com as vendas. Vendemos bem, graças a Deus. Não posso reclamar”, disse com o sotaque nordestino e sorriso no rosto. Do que ganha, ela tira recursos para ajudar nas despesas dos filhos de 21, 20 e 12 com as contas de água, energia e telefone. “Tem de garantir o telefone, pois é a forma que temos para matar a saudade. Ligo todos os dias para meus filhos”, disse ela, que também carrega fotos deles na bolsa.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários