Atrás do grandioso templo do mosteiro de Claraval (MG), um prédio simples esconde uma diferente fonte de renda dos monges cistercienses. Para se auto sustentarem, os religiosos fabricam, entre uma oração e outra, licores artesanais. O processo segue receita original da Itália e a fabricação ocorre no mosteiro desde 1969. São 1,5 mil litros por ano, que rendem mais de R$ 82 mil. Mensalmente, são vendidas, em média, 40 garrafas de 270 ml. Cada uma custa R$ 15.
Irmão Inácio da Veiga é o licoreiro oficial do mosteiro e está no ofício há 11 anos. As técnicas foram passadas por um outro irmão, que já não mora mais no mosteiro mineiro. E como a idéia é perpetuar a tradição, irmão Valdeir auxilia na produção e aprende todos os passos da receita.
Altamente aromatizada, a bebida é doce e, ao mesmo tempo, de forte no teor alcoólico. A graduação chega a 38%. “Trata-se de uma bebida de elite, não popular, utilizada para auxiliar na digestão ou como aperitivo. Precisa ter um paladar apropriado, por isso o costume de se tomar apenas pequenos cálices antes ou depois das refeições”, explicou irmão Inácio.
A fabricação utiliza matérias-primas de “primeira”, como define o monge. Os cereais e algumas ervas são comprados em São Paulo, enquanto a maioria das essências e corantes vem do mosteiro mãe, localizado na Itália e que também mantém a tradição de fabricar licores. Alguns produtos, como o de jabuticaba, utilizam as frutas plantadas no próprio mosteiro. “Fica mais caro comprar fora. Além disso, não adianta saber só a receita, a técnica é essencial”.
Como o vinho, o licor precisa descansar antes do engarrafamento e da venda. Tempo, no caso, é sinônimo de qualidade. “São quase dois anos até o licor ir para venda. Selecionamos as ervas ou as frutas, depois fazemos a infusão e deixamos o xarope descansar por um ano. Em seguida, ocorre toda a manipulação e a bebida é maturada e decantada. Por fim, é filtrada e engarrafada”.
Como a produção é feita em grandes quantidades e a demanda é sazonal, a fabricação não acontece todos os dias. Ela segue o movimento das vendas. “Julho e o segundo semestre do ano são melhores. Recebemos muitos turistas e eles são metade da nossa clientela. O restante é de Franca. Os francanos têm muito carinho com a gente”, disse irmão Valdeir.
Os monges fabricam oito qualidades de licor. O São Bernardo, mais amargo, e o de rosas, doce, são os mais vendidos. Há ainda de café, jabuticaba, limão, mexerica, menta e anis. “Queremos dar mais reconhecimento aos nossos licores, inclusive, para 2008 pensamos em legalizar nossa situação e ganhar mercados”, conta irmão Inácio.
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