Marcela de Jesus Ferreira chega aos nove meses amanhã, segunda-feira. O bebê, que nasceu sem cérebro em Patrocínio Paulista, desafia a medicina. Com anencefalia, a menina, segundo os médicos, teria apenas poucas horas de vida, mas Marcela resiste e continua engordando e crescendo.
Ela está cada vez menos dependente do aparelho de oxigênio que usa desde o nascimento para ajudar na respiração. Chega a passar até duas horas no colo da mãe ou sentada (com apoio) no sofá da sala. “Ela adora ficar no meu colo, encostada no meu braço”, conta a mãe Cacilda Galante Ferreira.
A alimentação do bebê ainda é a mesma. Apenas a quantidade diária aumentou. Num intervalo de três horas, ela toma (intercalados) 150 ml de leite, 180 ml de papinha e 100 ml de suco de frutas. Toda a alimentação passa por uma sonda fixada ao nariz.
O dia de Marcela começa cedo. Às 5h45, ela recebe a primeira alimentação. Por volta das 7 horas, toma o único banho do dia de cerca de uma hora. A partir daí, a cada hora, ela é alimentada e passa a maior parte do tempo deitada em seu berço. O dia se encerra às 21 horas, quando Marcela recebe a última alimentação do dia. “Ela dorme bem tranqüila. Mas, como toda criança, de madrugada acorda e fica agitada”. Marcela não toma medicamentos, apenas vitaminas.
Medo é algo que Cacilda não tem. Ela fala com serenidade da trajetória dos últimos nove meses. Em todo esse tempo, garante que chorou só em um momento. “Eu entreguei a vida da minha filha a Deus antes mesmo dela nascer. Nunca fiquei triste. Só me lembro de ter chorado uma vez, ainda no hospital durante a primeira mamada dela, mas, a cada coisa que ela faz diferente, eu me emociono”.
Para a mãe, apesar dos médicos garantirem que Marcela é incapaz de sentir ou ter emoções, sua filha a reconhece e reage a sua presença. “Eu sei que eles (os médicos) dizem que ela não sente nada. Mas sou eu que fico com ela 24 horas por dia. Eu é que sei o que ela é capaz de fazer ou não. Eles podem falar o que quiserem, mas, no meu coração, eu sei que ela me reconhece”.
Sobre a sobrevida de Marcela, Cacilda a atribui a Deus. “Os médicos não conseguem explicar como ela ainda está viva. Para quem não ia viver mais do que 15 minutos, a Marcela foi longe... Eu sei que isso foi a intervenção de Deus. Ele é que tem mantido ela comigo”.
Para o geneticista Thomas Gollop, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, a explicação é outra. “A maioria dos anencéfalos não tem o tronco cerebral (uma espécie de cérebro rudimentar). A Marcela não só o possui como o dela é muito bem desenvolvido, por isso ela consegue viver mais”.
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