Marcela de Jesus Galante, beijo gay na capa do Comércio, erros e acertos do caderno Local, cobertura esportiva, da Francal e de política foram alguns dos assuntos discutidos na reunião do Conselho de Leitores do Comércio, que aconteceu no dia 11 de agosto, um sábado, na sede do jornal.
Eles foram recebidos pela presidente do Conselho de Administração, Sônia Machiavelli Corrêa Neves, o diretor-responsável Corrêa Neves Júnior, a editora-chefe Joelma Ospedal; o gestor de Relações Corporativas e editor de Opinião, Luiz Neto; o diretor da rádio Difusora, Everton Lima, e pelo editor-assistente do caderno , Eduardo Schiavoni.
Entre todos os assuntos debatidos, os que causaram as maiores reações foram o caso Marcela, a bebê anencéfala de Patrocínio Paulista, e o beijo entre dois homossexuais, publicado na capa do Comércio em 31 de julho por ocasião da primeira Parada Gay de Franca. Também participou do encontro a diretora Administrativa do Comércio, Dulce Xavier Louzada.
Sobre o bebê, a maior parte do grupo - que teve acesso a fotos não utilizadas nas edições do Comércio que mostram detalhes da deformidade craniana de Marcela - concordou com a exposição de fotos, mas desaconselhou o uso de imagens mais “pesadas”. “É muito chocante e tem que ser mostrado, mas as imagens mais ‘cruas’ assustam”, disse a conselheira Juliana Sanches.
Já Marco Aurélio Piacesi, que é médico, prometeu chamar a atenção da comunidade científica para o caso. “Nós médicos erramos em não acompanhar o caso mais de perto. A Marcela é um caso único em todo o mundo e nós não estamos sequer tentando entender onde a medicina errou”, disse.
Sobre o beijo gay, o conselho ficou dividido. Alguns, como Luís Eduardo Marques Ferreira (Duda), consideraram a imagem ousada demais. Outros, como Irinéa Donizete da Silva, consideraram a cobertura adequada. “Eu fui com meu namorado, para conhecer, e o que foi retratado era a parte mais calma do que acontecia lá”, disse.
Corrêa Neves Júnior ressaltou a qualidade do novo grupo, que realizou sua segunda reunião, e afirmou que as sugestões mais relevantes serão incorporadas ao cotidiano do jornal. “É importante para nós saber o que os leitores pensam das coberturas que realizamos. Queremos estar atentos ao que eles têm a dizer e, na medida do possível, aperfeiçoarmos nossa cobertura ao gosto do leitor”, disse.
Outro ponto importante nos debates foi a cobertura esportiva realizada para os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, considerada adequada, mas não deixaram de criticar a falta de informações sobre os Campeonato Brasileiro das séries B e C e do Campeonato Mineiro. “Talvez por falta de espaço seja difícil dar atenção a todos os torneios, mas sinto falta das tabelas e de notícias mais freqüentes”, disse Sérgio Lanza.
Já o conselheiro Duda disse que a opinião do jornal e, em especial a Objetiva, precisam de novo design. “São espaços muito nobres para serem tão espremidos e prejudicados”, disse.
NA PONTA DA LÍNGUA
O segundo encontro dos Conselheiros começou às 9h30 e foi até 12h45. Foi pouco. Alexandre Leonel, Ana Célia de Freitas e Ana Célia Nascimento Borges, Camila Beghelli Schirato, Carlos Eduardo Gimenes de Matos, Dinamar Lacerda Domiciano, Irinéa Donizete da Silva, Juliana Sanches Passo, Luís Eduardo Marques Ferreira, Marco Aurélio Piacesi, Marcos Donizete de Souza, Ricardo Veríssimo Júnior, Rosa Santa Batista, Sérgio Coelho Lanza, Tatiane Cristina Venuto e Tiago Monteiro Martins estavam afiados, com anotações e pontos de vista na ponta da língua. Thaís Aparecida Machado e Margaret Aparecida do Nascimento Leite justificaram ausência.
VOZ GROSSA
Everton Lima, diretor da Difusora, participou novamente do encontro. Durante o mês, vários conselheiros contataram o experiente radialista para conhecer detalhes sobre os programas e afirmaram: “Vamos cumprir também nosso papel de analisar, criticar e, quando for o caso, elogiar a Difusora”. E não ficaram só na fala.
QPED E NÃO PQP
Carlos Eduardo foi taxativo. “O comentarista Vinícius Araújo cometeu um ato falho, ao versionar manchete de jornal argentino, grafada QPED – algo como ‘que em paz descanse’ –, sobre a péssima performance de sua seleção frente aos brasileiros, como PQP”. Everton pediu a palavra: “o comentarista não afirmou que a tradição literal era PQP. O rádio ao vivo permite aos comunicadores expressarem o que sentem e o que grande parte da torcida brasileira sentia na ocasião. Não foi um ato falho, pois Vinícius quis se referir ao que, provavelmente, ia na alma do mancheteiro do jornal argentino: não ganhamos uma!”. O conselheiro Sérgio Lanza concordou: “Vinícius disse o que mais da metade da torcida brasileira queria dizer”.
SUPLEMENTOS
Luiz Eduardo, o cirurgião-dentista Duda, pediu a palavra para elogiar os suplementos editados pelo Comércio quando da Francal, em São Paulo. “São ótimos”. Marcos Donizete completou: “Vocês fizeram bem em levar a Insight para os cadernos diários”. A coluna, segundo ele, mostra personalidades, artistas, coisas de bastidores dos grandes eventos e garante leitura leve em meio às tentativas de compreender a crise do setor calçadista. Piacesi, médico, contou sobre o pós-feira em seu consultório: “Empresários me pediram para criar horários alternativos para funcionários que necessitassem, pois a feira trouxe de volta a movimentação das esteiras de produção”. O formato da cobertura – “embora deficitária comercialmente falando”, segundo Júnior – mantém o espaço do jornal no evento e significa marketing institucional, pois o estande do Comércio se torna ponto de encontro de visitantes. “A Difusora também foi bem em suas atividades no evento”, de acordo com Juliana Passos.
O CASO TJB
O caso de TJB, jovem que chegou à sétima série sem saber ler e escrever, publicado pelo jornal e contestado pela diretoria regional de Ensino, tirou adjetivos de todo tipo dos conselheiros. A professora Camila Schiratto considerou-o “vergonhoso”. Irinéa ficou brava com a publicação de detalhes que poderiam levar ao personagem. Leonel ficou com a sensação de que houve “um descuido do repórter”, mas ressaltou que ficou patente “o cuidado de não expor o garoto”, no que foi apoiado pela editora-chefe do Comércio, Joelma Ospedal. Sônia Machiavelli, presidente do Conselho de Administração, concluiu: “O ideal seria que matérias do tipo provocassem debate, discussão para que soluções fossem criadas. O que se observa, no entanto, é que matérias sobre Educação, se não forem elogiosas, são sempre mal interpretadas”.
RADARES...
A reportagem sobre aumento da perda de vidas depois que a sinalização eletrônica - popularmente conhecida por “radar” – foi abolida pelo prefeito Sidnei Rocha, foi criticada com um “sou contra” do conselheiro Duda. “Não acho que sinalização eletrônica reduza a perda de vidas. Multas devem ser aplicadas por fiscais. Radar não tem nada de preventivo”. Piacesi concordou com a matéria. “Sinalização eletrônica funciona na marra, pois o brasileiro não tem educação quando dirige”. Lanza disse que não concorda com imposições: “trânsito é educação”. Irinéa afirma conhecer caso de cidadão que está “tirando carta” com a auto-escola colocando à disposição do candidato “fazer menos aulas de volante, mas com pagamento para todas as previstas”. Duda confirmou: “Conheço um caso de revalidação de CNH sem exames ou aulas”.
E SEGUE
Veríssimo Júnior se recorda que o atual prefeito “tirou os radares da cidade porque em campanha disse que faria isso por considerar tudo uma indústria de multas”. “Apesar da matéria bem construída e repleta de dados do Comércio”, Sidnei não vai se convencer a voltar com os radares. Seria derrota política. Prefere se despreocupar das vidas que se perdem”, finaliza.
MARCELA
O bebê sem cérebro de Patrocínio Paulista, Marcela de Jesus, que completou nove meses e recebeu, da parte do Comércio, completa cobertura, dividiu os conselheiros. Alguns perguntaram sobre as razões que levam o jornal a não publicar fotos que revelem mais detalhes do bebê. O conjunto de fotos em arquivo no jornal foi passado ao conhecimento do grupo. Tatiana e Dinamar afirmaram que “não devem mesmo ser publicadas”. Piacesi afirmou que o caso “precisa receber a atenção de especialistas nacionais e internacionais porque significa xeque-mate em alguns conceitos aceitos como dogmas”. E prosseguiu: “se a mãe permitisse a análise mais adequada do caso – e sabemos que ela não permite – poderia haver compreensão mais adequada e até, reposionamento de leis”.
AINDA...
“Se o Comércio não tivesse sido o primeiro meio de comunicação a tratar do caso Marcela, fazendo-o sob o rigor da abordagem jornalística, provavelmente outros veículos tivessem transformado a menina em sensacionalismo barato”, afirmou Leonel. “Concordo com a mãe da criança, que há um motivo ainda não esclarecido para que Marcela esteja indo tão longe, seja ele religioso, acadêmico ou outro qualquer”. E conclui: “Só não concordo quando D. Cacilda decide-se por manter sua filha longe dos olhares científicos, que poderiam, aliar, dividir com ela a responsabilidade de dar sustentação a Marcela”.
BEIJO GAY
Júnior abriu a discussão sobre a foto de um casal gay se beijando em público, durante a Parada Gay de Franca. Duda foi taxativo: “Sou contra a foto”. Júnior voltou a falar: “É preciso quebrar paradigmas. Nos anos 70, um casal heterossexual se beijando em público causaria furor”. Joelma defendeu a publicação da foto: “O jornal não pode esconder os fatos”. Carlos Eduardo concordou: “A impressa não pode ser preconceituosa”. Veríssimo esticou o assunto: “A sociedade é hipócrita; parece que as pessoas não querem entender que o mundo precisa aceitar a diversidade”.
PRÓXIMO ENCONTRO
Fim, com gosto de pouco tempo para pautas e para o interesse com que os conselheiros gostariam de ter se lançado. Reclamaram. Fica para o próximo encontro, em 20 de outubro.
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