‘Somos um Estado gordo, mas fraco’


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Guilherme Afif Domingos (DEM-SP), secretário estadual de Emprego, durante evento em Franca: para o liberal, Estado brasileiro é “gordo”, mas fraco, e precisa ser “enxugado” para atender corretamente à população
Guilherme Afif Domingos (DEM-SP), secretário estadual de Emprego, durante evento em Franca: para o liberal, Estado brasileiro é “gordo”, mas fraco, e precisa ser “enxugado” para atender corretamente à população
“Juntos chegaremos lá, fé no Brasil. Dois patinhos na lagoa, vote Afif 22, quém quém”. O jingle, utilizado pelo paulistano Guilherme Afif Domingos na campanha eleitoral de 1989, quando concorreu para presidente pelo PL, permanece intocado na cabeça dos eleitores que acompanharam a primeira eleição democrática para presidente do Brasil depois da ditadura. Hoje no Democratas, ex-PFL, o empresário ocupa a Secretaria do Trabalho do governo José Serra (PSDB). Ele esteve em Franca, no último mês, para anunciar um programa do governo estadual que pretende mapear o emprego em todas as regiões do Estado. Durante sua passagem pela cidade, falou em entrevista exclusiva ao Comércio. Confirma abaixo as principais considerações do liberal, que acredita que o Brasil deve abrir espaço para a centro-direita como contraponto ao domínio das doutrinas de esquerda na política nacional. Comércio da Franca - O senhor anunciou um projeto que pretende mapear o emprego em São Paulo. Quais as diretrizes desta pesquisa? Guilherme Afif Domingos - Queremos saber qual a situação do emprego em nosso Estado. Precisamos saber onde falta qualificação para podermos investir. Infelizmente, o Brasil não leva em conta diagnósticos antes de investir, e eles são essenciais. É preciso saber quais as deficiências para, depois, resolvê-las. Para isso, é essencial a participação dos municípios, que sabem exatamente o que seus cidadãos precisam. Comércio - E como lidar com a questão do trabalhador informal? Afif - Temos que cuidar do que chamamos de MEI (Micro Empreendedor Individual), que é uma pessoa que trabalha licitamente, mas sem nenhuma cobertura. Através do programa, que estipula R$ 3 mil como renda máxima, ele passa a ser um trabalhador coberto pelo INSS, com todos os direitos, gerando emprego e renda e pagando, por isso, menos de R$ 60 mensais. Comércio - O brasileiro trabalha cinco meses para pagar impostos e, ainda assim, tem péssimos serviços públicos. Por quê? Afif - Em primeiro lugar, serviço público não é serviço gratuito. Ele é pago pelos impostos, e custa muito caro, chega quase aos 40% da renda das pessoas. O que acontece é que a classe média prefere pagar duas vezes por um serviço a que tem direito - como educação e saúde, por exemplo - do que lutar para ter o retorno pelo qual paga. Está errado. Abandonar o serviço público, que é caro e ineficiente, não é a alternativa. Especialmente porque não são todos que podem usufruir do serviço privado. O grande problema é que a classe média, de um jeito ou de outro, acaba suprindo os serviços que deveriam ser públicos. Essa atitude, porém, é irresponsável, pois uma grande parcela da população não pode pagar por um serviço particular e mesmo a classe média, cada vez mais empobrecida, acabará tendo que recorrer aos serviços públicos em um futuro não muito distante. Comércio - Qual seria, em sua análise, a solução para a questão tributária, uma das mais agudas que o País vive hoje? Afif - Ela tem que ser primeiro olhada como problema fiscal, que é diferente do tributário. É preciso que se defina quem faz o que, qual a função do município, do Estado e da União. Definido isso, qual o recurso de que eu preciso para que cada uma das partes desempenhe adequadamente sua função. Tudo que o município puder fazer melhor, que os Estados não faça. Tudo que os Estados puderem fazer melhor, que a União não faça. Tudo que a União puder fazer melhor, que nem Estados nem municípios o façam. E, por fim, tudo que o cidadão e a sociedade organizada puderem fazer melhor, que nenhuma das três esferas faça e, por favor, que não atrapalhem quem faça. O Brasil tem hoje uma iniciativa privada altamente competitiva, capaz de fazer, mas, muitas vezes, o poder público tem atrapalhado a desenvoltura do setor privado. Se cumpridas as funções básicas do Estado, podemos fazer uma reforma tributária que abranja os recursos necessários e seja brutalmente simplificada. Comércio - O Estado Mínimo é o caminho? Afif - O caminho é o Estado forte. Agora, Estado forte não é Estado gordo, obeso, que não respira e com gorduras excessivas. É o Estado que cumpre sua função, o Estado da educação e da saúde, que garanta os direitos do cidadão, da Justiça e da segurança. Que garanta a infra-estrutura básica. Temos a maior carga tributária do mundo, mas a saúde do Estado funciona? A Educação funciona? A Justiça? A segurança? A infra-estrutura? Estamos com um Estado gordo, desperdiçador e corrupto. Precisamos emagrecer o Estado para que ele fique forte. Comércio - Falta um choque de iniciativa privada no poder público? Afif - Falta um choque de administração pública. Eu não aceito que o contribuinte admita que a administração do Estado possa ser ineficiente. Na iniciativa privada, quem não gerir direito quebra. Já na administração pública, quem não gere direito acaba promovido, eleito porque distribuiu verba, ajudou amigos, etc. Comércio - Falando sobre política, o senhor recebeu uma expressiva votação - mais de 8 milhões de votos, e por pouco não foi eleito senador. Qual seu futuro político? Afif - Eu voltei, depois de 16 anos, ao embate eleitoral. Quero ficar. Franca e região, por exemplo, me deram expressiva votação. Ganhei em quase todas as cidades da região, pelo que agradeço. Se quase ganhei disputando com o Eduardo Suplicy, que é um nome forte, e com uma única vaga em disputa, meu nome está à disposição da coligação para a próxima eleição ao Senado, onde serão escolhidos dois representantes de São Paulo. Comércio - O senhor acredita na reedição da dobradinha com o PSDB? Afif - Tenho certeza que continuaremos sendo parceiros nas próximas eleições. A aliança com o PSDB é essencial para ambos. Comércio - Fale um pouco sobre a mudança de nome do partido, de PFL para Democratas. Algo mudou realmente? O partido pode passar de mero coadjuvante a legenda com ambições próprias? Afif - Se não fizer isso, vai rodar. Até porque o PFL, como partido, representou a sua época, mas passou. Os últimos líderes, como Antonio Carlos Magalhães, estão falecendo. São precisas novas lideranças, e o partido caminha para isso. Comércio - O DEM comandou o maior Estado da federação por nove meses, e responde, hoje, pelo terceiro maior Orçamento do País, a cidade de São Paulo. Faça uma análise a respeito do partido em São Paulo. Afif - O partido tem sido construído aos poucos em São Paulo, com muito cuidado. Em São Paulo, o partido era usufrutuário do bom tempo de televisão, que acabava sendo negociado, de uma forma muito subalterna e atrapalhava os interesses do partido, que não crescia no Estado. Com a intervenção e o comando do professor Cláudio Lembo e de Gilberto Kassab, passamos a fazer um planejamento de longo prazo. A idéia é fazer um trabalho selecionado, com calma, para que o Democratas cresça. Comércio - O senhor considera que o Democratas é, hoje, o novo lar dos liberais? Afif - Sem dúvidas. Ele tem todas as condições para assumir uma posição genuinamente liberal-democrata. Nós acreditamos que falta um espaço, no espectro político brasileiro, para o conceito da liberal-democracia, ou centro-direita. Eu acredito, sim, que o Democratas possa ser o porta-voz de uma corrente moderna, liberal-democrata, que fará ponto com a social-democracia, ou centro-esquerda, para garantir o centro da política brasileira. O Brasil, por natureza, rejeita os extremos e quer o centro. No passado, esse centro foi composto pela UDN e pelo PSD. Nós estamos, hoje, buscando esse ponto de equilíbrio junto com o PSDB. Comércio - Sobre partidos, como o senhor vê o cenário partidário no Brasil? Afif - Precisamos acabar com a pouca vergonha da falta de densidade eleitoral de um monte de partidos. O ideal é que tenhamos algo em torno de cinco grandes partidos. Aí, começa a ficar mais nítido o espectro ideológico e o estilo de cada um deles, mas sem produzir grandes alterações de rumo na agenda do país. E só dessa maneira poderemos construir uma grande nação. Podemos trocar de piloto, mas não de rumo.

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