Olha só o que me vem de Portugal: “A TMN é o primeiro operador a disponibilizar 300 mil computadores portáteis com banda larga, a 150 euros, no âmbito do programa e.escola, iniciativa do Plano Tecnológico Nacional de combate à infoexclusão. O objetivo é levar a meio milhão de portugueses o acesso a computadores portáteis e à Internet de banda larga. Destina-se a alunos do 10º ano, a professores do ensino básico e secundário e a trabalhadores inseridos no Novas Oportunidades.
Trata-se de um PC portátil Fujitsu Siemens, com a última versão do sistema operacional Windows Vista e do Microsoft Office, numa placa com valor superior a 800 euros, mas disponibilizada pela TMN por 150 euros. A Internet é o TMN Banda Larga Light, com 1 GB de tráfego, disponibilizado com desconto sobre o preço de mercado. As inscrições para o programa e.escola são feitas no site da TMN, ou no site do governo, selecionando a opção TMN.
Humm... A TMN é a operadora de celular da Portugal Telecom. Os tais notebooks, se tivessem o preço convertido para nossa moeda, custariam R$ 404. Serão 300 mil computadores. Portugal tem 10 milhões de habitantes, o que significa que 3% da população, serão atingidos pelo projeto de inclusão. Certamente a TMN não está perdendo dinheiro, muito menos a Fujitsu-Siemens e nem o governo. Onde é que está o truque?
Simples: no mercado futuro. Nossos irmãos portugueses sabem que, mesmo que cubram apenas os custos, esse investimento vai render dividendos no futuro, sem contar os ganhos sociais da inclusão no processo educacional dos portugueses. E ainda existe o componente do marketing. A garotada aprenderá a lidar com máquinas Fujitsu-Siemens. Acessará a internet através da TMN. Estão construindo consumidores fiéis.
Pois bem. Vamos fazer um exercício com o Brasil? Aqui, 3% da população seriam 5,5 milhões de pessoas. Já pensou se uma operadora de telefonia colocasse à venda para escolas, alunos e professores, 5,5 milhões de notebooks com banda larga por R$ 400?
Se a TMN pode fazer, será que ninguém consegue aqui? Ah, talvez não. Não sabemos pensar a longo prazo. Precisamos de tudo ao mesmo tempo agora, principalmente se o tudo for... dinheiro.
Mas se uma operadora de celular não puder, que tal um consórcio? Vale do Rio Doce, CSN, Votorantim, Petrobras, Gerdau... Ou bancos, com aqueles balanços mostrando resultados tão fantásticos que chegam a ser indecorosos.
Será que a Fujitsu-Siemens toparia a parada? Ou quem sabe a Dell. Ou a Positivo? Ou Lenovo?
E o governo, hein? Eu soube que o Ministério da Cultura acaba de liberar renúncia fiscal a captação de R$ 4 milhões para a produção do filme “O Doce Veneno do Escorpião”. O filme é baseado no best seller (250 mil cópias vendidas) de Bruna Surfistinha, com as aventuras eróticas de uma garota de programa.
Façamos as contas: quatro milhões de reais seriam 10 mil computadores do projeto e.escola português. O que causaria mais impacto na sociedade? Dez mil computadores nas mãos de estudantes e professores ou o filme da Surfistinha? Bem, como aqui é o Brasil, eu fico em dúvida. E se bobear ainda serei ofendido por ter feito a comparação...
Caso você queira saber mais sobre o e.escola, acesse www.tmn.pt e morra de inveja. Ou então espere o filme da Bruna.
LUCIANO PIRES é jornalista, escritor, conferencista e cartunista
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