Duas araras-azuis, que aparecem há cerca de dois anos na região do Bairro São José terão companhia em seus vôos em breve. O casal está formando uma família em plena cidade. Dois filhotes nasceram há cerca de 80 dias no quintal da casa do sapateiro aposentado Sebastião Morais, 66. Eles não tinha proteção alguma no corpo, mas já estão com penas azuis e amarelas como as dos pais e se atrevem a sair do ninho feito num latão de leite nos galhos do pé de manga.
O nascimento dos animais na área urbana pode ser considerado uma vitória. Sebastião disse que essa foi a quarta vez que a fêmea botou ovos na sua casa, mas só agora os filhotes sobreviveram. “Ela começou a chocar no ano passado, mas os primeiros ovos goraram. Nasceram dois filhotes, mas um morreu esmagado por ela e o outro, que tentei criar sozinho, morreu em uma semana”.
O biólogo Tadeu de Melo Júnior, professor do curso de Biologia da Unifran (Universidade de Franca), confirmou a raridade do fenômeno. “É incomum termos reprodução de araras na cidade. É muito importante esse nascimento no município de Franca”, disse.
Tadeu acredita que as aves têm muitas chances de sobreviverem, pois há poucos predadores naturais na cidade, como raposas, lobos e gaviões. O maior perigo é o homem. “Os humanos podem se tornar os maiores predadores delas, além dos animais domésticos.
As aves não podem ser muito manipuladas, pois são frágeis e isso pode perturbar o ambiente e até ocorrer abandono do ninho pelos pais”, alerta.
Na casa de Sebastião, há dois cachorros, mas ele garante que são “amigos” das novas inquilinas. “As adultas descem no chão e eles não fazem nada. Já criamos papagaios e galinhas e acho que se acostumaram”. O instinto maternal também é proteção para os filhotes. “Se alguém mexer no ninho quando os pais estão aqui, eles avançam, pulam nas nossas pernas. São bravos mesmo”.
Não se sabe se os filhotes procriarão no futuro, pois só é possível descobrir o sexo por meio de exame de DNA. As pequenas aves devem deixar o ninho em breve. A espécie costuma iniciar os vôos com três meses de vida e serem companheiras dos parentes. “As araras vivem em grupo. Esses filhotes vão acompanhar os pais por, pelo menos, um ano”.
As quatro araras moradoras no Bairro São José recebem tratamento de estrelas. Os pais dormem fora, numa palmeira em frente ao Hospital Regional, mas todas as manhãs, às 6 horas, retornam para a casa de Sebastião para comer. Ele compra frutas frescas, sementes, milho e até castanha para elas. “Trato elas como se fossem da minha família. Foi uma alegria quando ouvi o primeiro ‘gritinho’ dos filhotes. É um privilégio tê-las em casa”.
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