A pedidos, retomamos as discussões sobre mulheres na maturidade, pensando nos tabus que nos envolvem. Há sempre novos tabus substituindo os velhos.
A liberdade pode se transformar em tabu e, contraditoriamente, em prisão se você fica preso ao seu próprio conceito de liberdade, ou, o que é pior, ao conceito que outros instituem como ideal, sem se permitir outras visões.
Tabu tem em seu bojo esse encalacramento, esse fechar-se ao novo, a recusa em permitir-se sair daquilo que é costume. Para a psicanalista Maria Rita Kehl, hoje vivemos sob o imperativo da felicidade e do prazer. As pessoas que atravessam fases de desânimo, tristeza ou apatia, absolutamente normais pelas contingências do dia-a-dia, sentem-se logo muito sozinhas, inadequadas e são tratadas como depressivas. ‘E acabam mesmo ficando deprimidas, em função disso!’, afirma Kehl.
A hipersexualização é outro desses tabus contemporâneos, geralmente funcionando como defesa. Nada contra (muito pelo contrário) a fruição de uma vida sexual recompensadora e prazerosa. Ma a sexualização das relações, quando estas ainda não estão maduras para isso, pode nos levar a um território oposto daquele que desejamos alcançar, se é que estamos falando de amor, envolvimento. Também nada contra as famosas “one night stand”, ou o “ficar” que os maduros passaram a copiar dos adolescentes. Se estiver feliz nessa plataforma, vá em frente! O problema é “ficar” quando a carência é por algo mais profundo.
Só um exemplo, real, para ilustrar o que estamos dizendo.
Descasada havia quatro anos, uma mulher de 43 anos se queixou ao seu analista o fato de que todas as abordagens masculinas lhe pareciam profundamente ofensivas. ‘Mal trocamos as primeiras palavras e eles já vêm com propostas indecentes. Não foram poucas as vezes que me chamaram para ir a um motel antes mesmo de me perguntarem o nome’, dizia ela ao analista.
Mulher bonita, professora universitária bem-sucedida, apreciadora e conhecedora de arte e música de qualidade, sofisticada, eloqüente. Com todos esses atributos ela não se dera conta do óbvio: a mensagem que enviava previa justamente aquele tipo de resposta.
Após a separação, transformara seu guarda-roupa, acreditando que as mudanças que ansiava para a sua vida se dariam de fora para dentro. Para atrair os homens revolucionou o seu layout: jogou fora os terninhos em tons de pastéis, os conjuntinhos discretos e floridos que sempre vestira substituindo-os por vestidos de fendas ousadas, decotes cavados, transparências. Também o cabelo preto e liso de sempre em penteado chanel transformou-se, à guisa de altos investimentos no cabeleireiro, numa vistosa cabeleira em tons avermelhados e reflexos platinados, bem como a maquiagem, de básica a voluptuosa - novo estereótipo.
‘Não entendo por que você age como uma virgem ofendida diante de uma cantada mais ousada, pois se na sua mensagem corporal está praticamente escrito: sexo’, disse o terapeuta. Como ela queria delicadeza, sensibilidade, encanto, descobrimento se escancarava, geralmente em bares de happy hour, uma postura quase sempre vulgar?
É lógico supor que uma modificação na aparência e no guarda-roupa sejam acessórios importantes para quem deseja se transformar. Pode ser prazeroso e estimulante mudar de cara, cuidar-se melhor. Um corte de cabelo pode ser uma medida prática, até mesmo um símbolo inaugural dos novos tempos, mas não espere dessas medidas muito mais do que isso. O melhor é buscar ser minimamente congruente com o que deseja. Se a proposta é sexo casual, não vá procurar profundidade. Pode ser gostoso, diferente, mas é sexo casual.
O pesquisador Konrad Lorenz, interessado no comportamento sexual de peixes e em sua analogia com o humano, fez um estudo interessante a esse respeito. Existem espécies de peixes cujas fêmeas habitualmente nadam de maneira sedutora diante dos machos que procuram fecundá-las. Lorenz obteve êxito ao condicionar uma fêmea para comportar-se de maneira oposta - ela procurava o macho de um modo agressivo. Qual foi a reação dele? A total incapacidade de realizar o ato sexual!
DISPOSIÇÃO PARA CONHECER ALGUÉM
Verificar se tem disponibilidade interna para se envolver deve ser uma auto-avaliação séria a se fazer. Cuidado com o que você procura - tenha alguma clareza nesse aspecto - e com o que você deixa à mostra acerca de si mesma. As interpretações podem ser inúmeras e opostas ao que de fato você busca. Não ande em círculos desejando a proteção ilusória dos velhos tempos para não correr o risco de repetir-se nos mesmos enganos. Mostrar uma autoconfiança excessiva, se você não a possui (e quem a possui de fato?), será desonesto e ocasionará problemas futuros.
VIOLA X HAYDN
Para as mulheres, nessa mesma seara, fingir, por exemplo, que ama música sertaneja porque o homem por quem você está interessada é afeito às modas de viola, quando, na realidade, o que você prefere mesmo é escutar Haydn no silêncio do crepúsculo, será insultar-se a si própria. Ou ainda tentar enredá-lo com artimanhas manjadas as quais nove entre dez representantes do sexo masculino têm verdadeiro horror, do tipo maternalizar a relação tentando torná-lo dependente daquilo que você pode lhe oferecer: eles não são bobos e percebem quando a teia está sendo tecida ou estendida para enredá-los. Por outra, um homem que quer cuidados maternos deveria procurar antes uma terapia, você não acha?
POR FIM
Entenda que todos esses alertas de ‘cuidado’ nesse texto, nas situações colocadas, expandem-se para: cuidado consigo própria para não se machucar tanto. Isso não quer dizer blindar-se. Vida é risco permanente, isso já foi dito e redito. Mas já tendo passado por alguns outonos, é bom se valer da experiência para se preservar um pouco mais, não se deixar à mercê ou vulnerável demais.
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