A crise e o superávit


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Há dois fatores capazes de atrapalhar as contas externas brasileiras. O primeiro, a redução nos preços dos principais commodities de exportação (complexo soja, minérios, açúcar etc). O segundo, a queda na quantidade exportada. O primeiro fator depende do nível de atividade e do comércio mundial e também dos investimentos dos fundos especulativos. O segundo depende da atividade mundial. Ambos - atividade e comércio - serão afetados pela crise econômica atual. * * * A primeira peça desse desaquecimento está na economia americana. Com a queda nos preços dos imóveis e a crise do crédito, o consumidor americano estará muito menos propenso a consumir nos próximos anos. Embora as previsões apontem para um crescimento, ainda que modesto, do PIB americano, o consumo deverá registrar a primeira queda em 17 anos. Essa queda impactará todos os países exportadores, particularmente a China. Com menor demanda, o ritmo de crescimento da China deverá se reduzir e, com ele, o consumo e as cotações dos principais commodities mundiais. * * * Aí entra o Brasil. Nos últimos anos os superávits da balança comercial foram sustentados pela explosão no consumo de commodities. Em 2003, com o real desvalorizado e a economia mundial se acelerando, havia amplo espaço para uma ampliação das exportações de produtos manufaturados e semi-manufaturados com componentes tecnológicos. Em 2003 e 2004 muitas pequenas empresas conseguiram espaço no mercado mundial, vendendo produtos com algum valor tecnológico similar aos líderes de mercado, e a um preço bem menor - graças ao câmbio. Com a apreciação cambial, esse sopro exportador se reverteu e o País voltou a depender fundamentalmente das commodities. * * * Vamos a um pequeno exercício numérico em cima da balança comercial de julho. No total, o superávit comercial (exportações menos importações) foi de US$ 3,35 bilhões. As exportações de produtos básicos e semimanufaturados somaram US$ 6,782 bilhões. Pedi ao Departamento Econômico da Agência Dinheiro Vivo que simulasse de quanto seria a queda nas vendas conforme algumas hipóteses de redução de preços e de quantidade. A análise englobou os dez primeiros itens de exportações de básicos, somando US$ 3,3 bilhões. Se ocorrer uma queda de 10% nas cotações desses produtos, e 10% na quantidade vendida, haverá um baque de 19% nas exportações. Ou, estendendo a análise para o universo dos básicos e semimanufaturados, US$ 1,3 bilhão - ou 38% do superávit do mês. Se as cotações caírem 15% e o consumo 10%, a queda corresponderá a 48% do superávit comercial. Não se levou em conta eventual queda nas exportações de industrializados, cujo maior mercado são os EUA e América Latina. De qualquer modo, a conta vale como noção de valor. Com a queda do superávit comercial, as contas externas brasileiras - que dependem de outros itens - poderão ficar apertadas. O desafio, agora, consistirá em permitir a rápida desvalorização do real para tentar recuperar o terreno perdido na indústria de transformação. ARGENTINA O Ministério do Trabalho da Argentina obrigou ontem a companhia aérea brasileira Varig a deixar sem efeito as cerca de 100 demissões de seu pessoal em Buenos Aires. Além disso, o Ministério decidiu prorrogar por cinco dias úteis o chamado “Procedimento Preventivo de crise” (PPC), dentro do conflito entre a União Pessoal de Aeronavegação de Entes Privados (UPADEP) e a Varig. Os trabalhadores alegam que a empresa Gol, que comprou a Varig, espera o vencimento do PPC para fechar definitivamente a companhia e demitir os funcionários. Na semana passada, as autoridades argentinas suspenderam as operações da Varig pela “situação institucional” da empresa e pela “falta de cumprimento dos requisitos de ordem técnico-operacionais”. Os trabalhadores criticaram os empresários brasileiros e os acusaram de “falta de escrúpulos e sensibilidade na administração desse conflito”, em um release distribuído esta semana entre os passageiros da Varig que chegaram ao Aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires. A UPADEP garantiu que o objetivo é demitir, sem indenização, os 104 empregados para voltar a contratar 80 pessoas, sem reconhecer a antigüidade. A proposta foi rejeitada pelos trabalhadores e se abriu uma instância de negociação no Ministério do Trabalho. SUPERSIMPLES O secretário da Receita Federal, Jorge Rachid, admitiu que a legislação sobre o Supersimples (regime simplificado de tributação, que unifica impostos federais, estaduais e municipais) deve ser mudada para incluir a compensação de créditos do PIS e da Cofins. Segundo Rachid, houve entendimento entre o Ministério da Fazenda e o setor privado para a mudança porque empresas optantes pelo Supersimples não podem gerar crédito com PIS/Cofins. Isso, segundo empresários, diminui a competitividade das micro e pequenas. O argumento do setor é que, sem o crédito, essas empresas têm custo 9,25% maior (a alíquota dos tributos). E que esse valor tem de ser bancado pela empresa, sob o risco de perder o cliente, já que o comprador não pode descontar o valor, como faz com grandes fornecedores ou no antigo Simples. Apesar do acordo, não há prazo para a mudança. Rachid informou, apenas, que a decisão não deve ser anunciada em lei complementar, que precisaria ser aprovada no Congresso e sancionada pelo presidente.

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