Centenários


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O auxiliar de motorista aposentado Benedito Venceslau Pereira, que completou 101 anos no dia 22 de julho deste ano, mostra fotos antigas: “É um orgulho viver tanto”
O auxiliar de motorista aposentado Benedito Venceslau Pereira, que completou 101 anos no dia 22 de julho deste ano, mostra fotos antigas: “É um orgulho viver tanto”
Eles nasceram no mesmo local - região da Casa Seca, sempre gostaram de trabalhar. São viúvos, têm filhos, netos, bisnetos e tataranetos e moram com familiares em Franca. Há mais coincidências entre Benedito Venceslau Pereira e Petronilho Teodoro da Silva: a idade. Os dois têm mais de cem anos. São exceções não só por terem ultrapassado um século de vida e vencido a expectativa de vida do Brasil que é de 71,9 anos, mas por serem do sexo masculino. Dificilmente, os homens alcançam tal idade. O Censo de 2000 registrou 33 centenários em Franca. Do total, 23 são mulheres. Nascidos em meados de 1906, eles viram duas grandes guerras mundiais, a explosão de uma bomba nuclear no Japão, a seleção brasileira ganhar cinco Copas do Mundo, a Revolução Constitucionalista de 1932, o golpe de 1964 que instalou a ditadura no Brasil, o surgimento da televisão, cinema, internet, as visitas dos papas João Paulo II e Bento XVI ao Brasil, entre outros episódios importantes. Eles se lembram desses e outros fatos históricos que marcaram o Brasil e o mundo, mas preferem falar sobre suas próprias vivências. Benedito completou 101 anos no dia 22 de julho deste ano e se recorda com alegria de quando conheceu Franca. “Aqui não tinha nada. Era um ‘campão’, sem asfalto nem nada. A cidade cresceu muito”. Uma das passagens mais marcantes para ele foi durante sua infância, quando ajudava os tios a transportar madeiras da Casa Seca para Franca no carro de boi. “A gente viajava da fazenda para a cidade chamando os bois pelo nome. Eram madeiras usadas para construir andaimes para fazer a igreja Catedral”. Os anos em que trabalhou como auxiliar de motorista de caminhão também deixam saudade. “A gente viajava a noite toda pelo País inteiro”. Tem vontade de voltar a pegar estradas novamente. “Hoje está bem melhor. Antes, quando chovia, as estradas ficavam ruins demais. A gente tinha de colocar correntes nos pneus para conseguir passar pelos buracos na terra”. Benedito foi lavrador, auxiliar de motorista e sanfoneiro e trabalhou até 85 anos. Ele tem o trabalho como seu maior orgulho e o segredo da longevidade. “Estou com idade de atleta. O segredo de viver como eu é trabalhar e ter uma alimentação boa. Umas ‘pinguinhas’ e cervejinhas também vão bem, mas só um pouquinho”, disse ele, que não pode beber e só abre exceção nas festas de aniversário quando toma um copo de cerveja. Quando não estava com os filhos vivos (dos seis, dois são vivos), os 15 netos, 16 bisnetos ou três tataranetos, Benedito gostava de bater papo com amigos na Praça da Estação, mas teve pneumonia há três meses e, enfraquecido, não consegue mais andar. Depende de apoiar nas pessoas, por isso suspendeu os passeios e passa boa parte do dia deitado, ouvindo a rádio Difusora. Era na praça que os dois centenários se encontravam. Petronilho também gostava de rever os amigos, mas problemas de desgaste nos joelhos limitaram sua locomoção. “Agora meus amigos vêm aqui em casa. Adoro conversar”. Ele soube pela reportagem que Benedito ainda está vivo e quer agendar uma visita ao amigo. “Conheço muita gente. Gente ruim e gente boa. O Dito (como chama Benedito) é o melhor preto do mundo. Achei que ele tivesse morrido. A gente se conhece desde pequeno, morávamos na Casa Seca em fazendas próximas”. Petronilho pretende relembrar a história ao lado do amigo. Provavelmente, resgatará uma de suas experiências inesquecíveis. A participação na Revolução de 1932. Petronilho é o único dos 700 soldados francanos que participaram da luta e ainda está vivo. “Não levei nenhum tiro e estou aqui até hoje para contar histórias”, disse, em meio a gargalhadas. Rir, aliás, é um dos “exercícios” favoritos desse senhor. “Rir é da minha natureza. Gosto de rir e não gosto de pessoas de cara fechada, não”. Ele completou cem anos em maio último e queria viver bem mais. “Não acho que tenho muita idade não. Já estou no fim, mas se vivesse mais 100 anos seria pouco para aproveitar a vida, viver bem, com amigos, a família”. Acredita que a receita para sobreviver um século seja seguir hábitos saudáveis. “O segredo? O segredo é não fumar, não beber, não fazer extravagâncias. Boteco não presta. Nunca passei uma noite sem dormir, nunca bebi pinga e sempre trabalhei muito”. Petronilho não acredita que os quatro filhos (todos vivos), dez bisnetos e dois tataranetos (a mulher dele morreu aos 79 anos em 1991) chegarão aos cem anos. “Nasci num tempo bom, me alimentava bem. Nos últimos anos, no Brasil só se faz comida cheia de veneno e eles comem dela”.

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