V ocê gostou? “Sim, ficou lindo!”; “Não! Achei que a cor do prédio está parecendo de bar noturno”; “Não sei, ainda não acostumei!”. Encontramos essas respostas no contexto de reformas de obras públicas, religiosas e comunitárias, especialmente quando envolvem edifícios culturais ou religiosos.
Todos aqueles que, de alguma forma, utilizam o espaço objeto da reforma, se sentem motivados a fazer apreciações subjetivas.
Gostos são construções advindas do histórico sócio-cultural dos desejos e olhares pessoais. Muitas vezes nos traem quando são o único critério para revitalizações, restauros e reformas.
Reformas necessitam de critérios conceituais e técnicos situados além de gostos pessoais para que o espaço atenda a novas demandas e, se possui dimensão simbólica, responder às novas ressignificações.
É claro que a dinâmica de produção das atividades humanas não está isenta de motivações subjetivas, porém, não devem ser o critério norteador de obras complexas e que envolvem soluções de diversos graus de problemas.
Além dos critérios técnicos e espaciais que respondem à funcionalidade, ao edifício se agrega valores simbólicos permanentes que expressam o conteúdo ideológico da comunidade que o utiliza.
Os valores simbólicos não devem ser confundidos com gostos subjetivos. Agregados à arquitetura, são formas de linguagem que comunicam os processos de apreensão de sentido para um grupo. Assim, a arquitetura é uma linguagem que possibilita a compreensão das identidades de uma determinada sociedade.
Dessa maneira, as reformas e revitalizações devem encontrar diálogo adequado entre técnicas e linguagens simbólicas próprias da identidade do edifício. É isso que chamamos ressignificação espacial.
A ressignificação do espaço, especialmente dos edifícios religiosos de valor sóciocultural, abrange elementos de características histórico-tipológicas do prédio original, histórico de uso e reformas anteriores, programação visual interna e externa, unidade e coerência icônica do espaço, iluminação funcional e estética, organicidade dos equipamentos e mobiliários em relação à tipologia e estética.
Um exemplo emblemático é o que está sendo realizado no Santuário Nacional de Aparecida. Como espaço complexo funcional como simbólico pode servir de parâmetro à reflexão.
O edifício do santuário não possuía projeto de linguagem simbólica adequada à temática conceitual de um espaço mariano.
Isso resultou, com o correr do tempo e sem nenhum critério, na anexação de gostos subjetivos e doações pessoais numa diversidade de linguagens, sem nexo significativo entre si, o que transformou o o espaço num exemplo de poluição visual.
Quando foi contratada equipe de arquitetura especializada em espaços religiosos, houve um diálogo entre as novas demandas espaciais, com as tradições culturais de utilização do espaço e os conceitos simbólicos fundamentais que deveriam cons-tar da composição da arquitetura.
O resultado desse diálogo tem ajudado aos usufruidores do espaço de Aparecida a vivenciá-lo como um local de referência e sentido às suas vidas.
É importante a consciência de que mobiliário, objetos simbólicos, devocionais que particularmente possuem qualidade estética ou valor financeiro, quando inseridos num outro contexto tipológico ou semântica espacial não encontram coerência icônica na linguagem do edifício e não contribuem para sua ressignificação. Isto desqualifica tanto o objeto como o edifício.
As lideranças das comunidades não devem impressionar-se com os gostos subjetivos e nem estar a serviço do contentamento de doadores, mas junto com aqueles que se utilizam do espaço compreender as melhores soluções para si e para as gerações futuras.
É sempre bom lembrar: nenhum grupo ou comunidade possui o conhecimento infuso da complexidade que envolve revitalização. A participação do grupo contribui para resultados na medida em que gostos e experiências de utilização espacial se qualificam através da cultura patrimonial; no caso da arquitetura religiosa, pelas orientações litúrgicas da instituição da qual o edifício faz parte.
Reforma e ressignificação de edifícios é uma oportunidade excelente de aprofundamento e crescimento cultural.
MARCELO PINI PRESTES é arquiteto e Doutor em gestão do Patrimônio Ambiental-Cultural.
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