É prazeroso a qualquer trabalhador que cumpre todos os horários e obrigações inerentes ao seu emprego receber, no dia combinado, o salário. Imagine, então, como deve ser ainda mais agradável receber, ao invés de um, dois ordenados. É uma regalia para poucos, mas é perfeitamente possível. Basta ser empregado da Prefeitura e fazer parte da alta cúpula do Sindicato dos Servidores Municipais.
Três pessoas vivenciaram essa realidade em Franca nos últimos quatro anos: trata-se do presidente da entidade, José Nhozinho Ramos, o “Paraná”; o diretor Elias Marcos Rodrigues e o vice-presidente José Joel Gomes (continua no cargo, mas perdeu a regalia em 21 de julho, após romper com Paraná). Por força legal, a Prefeitura tem de liberar até três servidores para exercerem mandatos no sindicato e continuar pagando seus salários normalmente. Isso custa quase R$ 3 mil por mês aos cofres públicos.
O estatuto do sindicato, por sua vez, prevê o pagamento de uma “ajuda de custo” aos mesmos diretores, sob a alegação de que eles têm de se dedicar integralmente às suas funções. Assim sendo, outros R$ 3 mil são desembolsados pela entidade para as mesmas pessoas.
Vários sindicatos da cidade foram consultados. Entre eles, o do Comércio, dos Enfermeiros, dos Médicos e dos Bancários. Em nenhum, a prática é adotada. “Sou médico da Unimed, atendo em meu consultório, nas Prefeituras de Franca e Patrocínio Paulista e é destes trabalhos é que sai minha remuneração mensal”, disse Marco Aurélio Piacesi, presidente do Sindicato dos Médicos.
Mesmo em sindicatos de servidores municipais de outras cidades, como Assis, Ribeirão Preto, São Carlos e Araraquara, não há duplicidade de salários. Em todas elas, os funcionários afastados recebem ou das prefeituras ou das entidades.
O presidente do sindicato francano admite, sem constrangimentos, a situação. “Aqui no sindicato, temos o mesmo salário pago pela Prefeitura, isso foi decidido em assembléia de associados. O diretor não tem horário, sábado, domingo ou feriado e recebe a remuneração do sindicato por conta disso (...) No meu setor eu trabalhava de segunda a sexta”, disse Paraná.
Ele disse que vários outros sindicatos dos servidores adotam a prática, mas questionado sobre quais seriam, esquivou-se. “Não vou citar porque é antiético. Cabe a discussão a cada categoria”.
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