Lixo industrial ‘some’ do aterro sanitário


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A cidade de Franca produz, todos os dias, centenas de toneladas de lixo industrial. Os materiais são recolhidos por caminhões e conduzidos até o aterro sanitário municipal “Nova Jersey”. Lá, é feita a pesagem e o tratamento do lixo. Também são emitidas as faturas de cobrança: para cada tonelada depositada, os industriais têm de desembolsar de R$ 70 a R$ 90. A administração do local fica a cargo de Emdef (Empresa Municipal para o Desenvolvimento de Franca), Amcoa (Associação dos Manufaturadores de Couros e Afins do Distrito Industrial) e Sindifranca (Sindicato da Indústria de Calçados de Franca). Tudo isso é transparente. Obscura é a quantidade de lixo depositada e do dinheiro que ele gera. As próprias responsáveis pelo local não se entendem sobre quantas toneladas entram por dia no local e, conseqüentemente, quanto se arrecada. A Emdef diz que são 106 toneladas diárias. As entidades acenam com 125. Para os funcionários que trabalham todos os dias no local, são mais de 200. Para tirar a dúvida, a reportagem do Comércio fez campana na porta do aterro e constatou que o número está muito próximo de 200. Afinal, quanto lixo é recebido e quem está ganhando dinheiro com o Nova Jersey? A relação entre Amcoa, Sindifranca e Prefeitura começou em 27 de setembro de 2005. O prefeito Sidnei Rocha (PSDB) criou uma lei firmando um convênio com as entidades para que elas fizessem a “execução de obras e serviços indispensáveis para a instalação do aterro”. Depois disso, deveriam ir embora e receber de volta, aos poucos, o R$ 1,4 milhão que investiram na implantação. Não foram. Pelo contrário, ganharam força e hoje controlam todo o dinheiro arrecadado com o lixo industrial na cidade. Em seu site, o Sindifranca (www.sindifranca.com.br) se orgulha por administrar o aterro. Na seção de associados, a página da internet lista entre as vantagens para quem se filiar o lixo industrial: “É administrado pelo Sindicato da Indústria em parceria com a Amcoa para suprir as necessidades do setor coureiro-calçadista contribuindo com a sociedade para se ter um ambiente mais saudável”. A Prefeitura não participa diretamente da gerência do aterro. Passou essa função para a Emdef, que recebe R$ 53 por tonelada depositada e ainda se obriga a fazer a manutenção da área. Por sua vez, Amcoa e Sindifranca, que recebem o restante do valor referente à tonelada, não têm despesas para assumir com o que recebem. O presidente da Emdef, João Marcos Rodrigues, disse que são depositadas por dia 106 toneladas de lixo industrial no aterro e que não sabe o que as entidades fazem com suas respectivas fatias no lucro. “Nossos balanceiros tiram os comprovantes de pesagem e enviamos a fatura para a Amcoa e o sindicato. A Emdef é uma empresa. Para nós, o aterro é um negócio”, disse, referindo-se aos R$ 100 mil arrecadados mensalmente. A matemática de Amcoa e Sindifranca traz outra realidade: entram, por dia, 125 toneladas. Considerando-se os R$ 53,92 repassados à Emdef por tonelada e 22 dias úteis por mês, o faturamento da empresa municipal deveria ser de, pelo menos, R$ 148 mil. Só aí, já haveria um “buraco” entre as contas de Emdef e das entidades. Sem um número concreto, a reportagem do Comércio da Franca passou a investigar. Foram ouvidos funcionários da Emdef, da Amcoa e do Sindifranca e todos apontaram para uma coleta superior a 200 toneladas diárias. Diante da diferença, foi feita, então, uma campana para se tirar a dúvida. No último dia 25, entre 8 e 17 horas, todo o movimento foi registrado. No total, entraram no aterro 53 caminhões carregados com lixo industrial. Em seguida, apurou-se que cada veículo chega ao local com cargas, na média, superiores a quatro toneladas. Resultado: entram no aterro em torno de 4,4 mil toneladas por mês, que gerariam uma receita de quase R$ 400 mil. Em meio a tantas incertezas e contradições, uma coisa é certa: apesar do aterro ser um patrimônio do município, se há alguém ganhando dinheiro com ele não é a Prefeitura. Colaboraram Silva Júnior, Tiago Brandão, Mônica Carvalho e Tiago Rocioli.

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