Força


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Judô, em japonês, significa “caminho suave”. Seus fins são fortalecer o físico, a mente e o espírito, de forma integrada, e desenvolver técnicas de defesa pessoal. Meu irmão foi judoca. Nas revistas que ele comprava eu lia que o praticante de artes marciais não deve usar a força física e os conhecimentos para agredir outra pessoa. Deve ter autocontrole. Para uma boa qualidade de vida é preciso força. Um físico forte é menos vulnerável a muitas doenças. Penso, porém, que se deve evitar o exagero. É necessário cuidar da saúde do corpo, pois ele é nosso templo, e isso se faz com alimentação correta, atividade física, sono regular. Mas a força principal não é a física: é a espiritual. É com um espírito forte que se consegue enfrentar muitas agruras da vida, contra as quais o vigor físico nada pode fazer. Suponhamos que o chefe faça uma crítica ao trabalho do subordinado. Este pode reagir de várias maneiras, mas se tiver força de espírito certamente não vai posar de vítima nem desdenhar o seu superior; vai repensar a qualidade do seu trabalho e fazer tudo para melhorar. Quem sofre uma ofensa pode perdoar e libertar-se ou então ficar preso ao rancor, ao desejo de vingança. A força espiritual é que vai decidir. Ela é que nos protege quando querem nos mostrar piores do que somos, ajuda-nos a suportar fatos cujo controle foge do nosso alcance. Por que, em situações semelhantes, umas pessoas se deixam dominar pela tristeza, pelo desencanto, pelo ódio, enquanto outras permanecem firmes, tentam manter a serenidade? A diferença está no espírito. Ser forte não é estar imune ao sofrimento, nem ser destituído de sensibilidade. Há pessoas, porém, que, feito esponjas, absorvem demais os problemas; vêem-nos muito maiores do que são, e aí sofrem além do que se deve. Parece que estão sempre carregando uma cruz pesada quando, na verdade, só estão passando por reveses normais da vida. A gente às vezes precisa ser meio “casca-grossa”, impermeabilizar-se, criar um tipo de proteção que faça bater e voltar, em vez de se alojar dentro de nós, eventuais ofensas sofridas. Dizem que faz mal calar-se, não ‘soltar os cachorros’. Isso é relativo. O que faz mal, a meu ver, é ficar escravizado a um sentimento ruim, retê-lo no íntimo, deixá-lo corroer as entranhas. Para livrar-se dele, entretanto, não é necessário ofender ninguém. Não condiz com um espírito evoluído alimentar vingança, querer corrigir um erro com outro erro. O indivíduo forte não impõe nada: conquista. Convence, como dizem, não com o argumento da força, mas com a força do argumento. Tem o espírito desarmado. Guia-se pelo senso do justo, busca a sabedoria, contém-se, faz o possível para dominar a si mesmo e não aos outros. Aprende e melhora com o tempo. O tempo ensina, mas de nada vale para quem não está disposto a aprender. Ser forte é ser livre, é ter paz, é vencer a indecisão, é saber dizer ‘não’, é ter paixão pelo que faz. É desapego. Não se deixar dominar por coisas que a gente tem de manter presas. É resistir à tentação. O indivíduo de espírito forte consegue viver de forma sadia; sabe controlar-se, dosar a energia; tem o otimismo como norma, como filosofia; não se prende a ilusão, a fantasia; move-se para vencer a inércia, a apatia; pensa positivo, procura a alegria; evita ver o mundo como o negativo da fotografia, não fica preso ao abstrato, à alienação, à pura teoria. Ser forte é procurar sempre a lucidez, é ter um norte; é preparar-se, qualificar-se para vencer os desafios sem depender tanto da sorte; é ter sensatez, viver usando o cérebro, e não os músculos, como suporte. É saber aguardar a vez; ter noção dos limites, da pequenez. É conhecer a inconstância da vida e ter alegria nos tempos de abundância, mas também nos de escassez. É saber a hora: de chegar, de ouvir, de falar, de ir embora. É evitar o narcisismo, ter auto-estima, esforçar-se para ficar bem consigo, mas não a ponto de deixar tudo de lado para ser namorado da flor do próprio umbigo. PAULO PEREIRA DA COSTA é Promotor de Justiça em Piracicaba

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