O Comércio publicou na semana passada estatísticas sobre a paternidade em Franca. De acordo com os dados expostos, mais de 2 mil jovens entre 14 e 16 anos não possuem o nome do pai nas certidões de nascimento. Nesses documentos o genitor é registrado como ‘desconhecido’.
Como assim, não têm pai biológico? Nasceram por partenogênese, sem o auxílio de um homem? Claro que não. São filhos que, por várias razões, não foram reconhecidos por seus progenitores, esses que agora estão sendo chamados à Justiça para cumprir com essa obrigação elementar: “pôs no mundo, então terá de chamar de seu”. Simplificadamente, é isto que os dispositivos legais enunciam e agora tentam fazer cumprir, ainda que tardiamente.
Sendo amanhã o Dia dos Pais, parece oportuno falar aqui neste espaço dedicado à reflexão psicológica, não das homenagens, que estas estão em todos os lugares, àqueles que merecem e sim, um pouco do que significa o pai na vida de alguém e da especificidade da filiação negada. Iniciemos exatamente pela questão do nome. O nome-do-pai (nom-du-père) é uma expressão cunhada pelo psicanalista francês Jacques Lacan na tentativa de abranger a função paterna. Numa sociedade patriarcal é o pai quem nomeia, dá o seu nome ao filho e, por meio desse ato, permite à criança a aquisição de uma identidade: dar nome às coisas e às pessoas é próprio do ser humano e marca de maneira categórica o lugar e relação do indivíduo com o mundo. No nome está a marca da ancestralidade, da origem. Ao oferecer ao seu descendente uma designação que seja sua também, o pai encarna a lei que regula a autoridade, os laços sociais e as identificações. No exercício da nomeação, a função paterna permite à criança adquirir uma significação ao desejo de quem a concebeu e a recebeu: ela pertence, ela faz parte.
Para a pesquisadora da Unicamp Cláudia Aparecida de Oliveira Leite, “os nomes próprios incluem marcas indeléveis da história, apontam para os desdobramentos subjetivos e relacionais e trazem as marcas da cultura”. É a partir desse legado paterno e de seu registro que a criança se diferenciará em meio ao real, simbólico e imaginário, absorvendo-se de alguma forma nesta nomeação que ele permite. A aposição de um nome diz respeito a todo um sistema de simbolizações muito importantes para a vida psíquica de uma pessoa.
MODELO
Outros aspectos muito falados em psicanálise, no tocante à figura paterna durante o desenvolvimento infantil se ligam ao modo como a criança se identifica com o pai. Essa maneira difere entre meninos e meninas. É na relação com o pai, por exemplo, que a menina aprenderá a se ligar (ou não) ao sexo oposto. Para o menino, o pai significa essencialmente o “espelho”, o projeto acabado do que ele almejaria (ou não) se tornar: conforme os gestos paternos, o menino tentará imitá-lo ou se tornar o oposto do que é esse pai, dentro do que, para a criança, significa toda a masculinidade.
Maternidade e paternidade são muito complexas para serem resumidas num artigo de jornal. Essencial é reconhecer a importância do pai na vida das crianças, desde a imputação de um nome. Cabe a ele estar atento no que diz e faz diante de seus filhos. Para eles, o papai é, a princípio, uma espécie de Deus!
Na relação com a criança, a figura parental se aplica da mesma forma para o seu substituto, para aquele que cuida da criança exercendo integralmente o papel do pai - na psique, a representação da ‘coisa’ é tão ou mais valiosa do que a própria ‘coisa’ em si e o inconsciente não reconhece as determinantes biológicas e sim as afetivas e sociais.Se você é pai adotivo, padrasto se é o tio ou o avô, a figura masculina que exerce a paternidade na ausência do progenitor, tudo isso se aplica a você também.
AOS PAIS QUE COMETEM CRIMES
Em virtude das manchetes cada vez mais freqüentes nos jornais quase todas as semanas em Franca dando conta de pais que molestam ou vitimizam seus filhos, não é demais dizer, considerando que entre este tipo de pai haja pelo menos um que nos leia.
Ao pai está reservado o papel de cuidador, de provedor, de protetor, jamais o daquele que violenta física ou psicologicamente o seu filho. Esse filho, carne da sua carne, ou um filho que a vida lhe ofereceu para ajudá-lo a se transformar num adulto, não é, não pode ser jamais objeto de gozo perverso.
Você o destruirá e, por extensão, se destruirá também se não compreender que ele não é você nem é seu para uso e desuso. Uma criança não tem força nem discernimento para resistir às investidas de alguém que para ela é tão poderoso e representa tanto quanto o seu próprio pai.
MAIS
Melhor ficar marcado na existência de alguém como aquele que lhe ofereceu um nome, uma base e instrumentos para enfrentar a vida do que como aquele que (muitas vezes também pela indiferença) destruiu parte de sua infância e interferiu em seu futuro. Pense nisso quando receber de seu filho ou filha o presentinho de Dias dos Pais que ele (ou ela) passou semanas preparando na escola especialmente para você.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.