Há dez meses, a vida do pespontador Abílio Esaías de Sousa, de 63 anos, deu uma reviravolta. Acostumado a passar longe dos serviços domésticos, ele se viu obrigado a assumir a casa e, junto com ela, a criação de seu filho Lucas Gabriel, de 3 anos.
Os dois foram abandonados pela mãe do garoto. Desde então, Abílio toca tudo sozinho. Como ele, outras centenas de “superpais” assumem o papel de pai e mãe em Franca.
São homens que, como muitas mulheres, têm uma dupla jornada de trabalho. Além de garantir o sustento, ainda precisam lavar, passar, cozinhar e arranjar tempo para brincar de carrinho, bola e, até de boneca. “Não é fácil, mas faço tudo com satisfação.
Sou eu quem prepara a mamadeira do Gabriel, lava, passa e troca suas roupas... Isso nos fez ser mais unidos até dividimos a mesma cama para dormir”, disse Abílio.
A rotina dele começa cedo. Por volta das 7 horas, Abílio prepara o café da manhã e leva Lucas para a creche. É neste momento, todos os dias, que ele percebe o quanto o ama. “Quando nos despedimos, é como se arrancassem um pedaço de mim. Somos muito apegados. Quando brincamos, parecemos dois moleques”.
A maior dificuldade que Abílio enfrenta é sua situação financeira. As despesas mensais, como água, luz e aluguel, somam, em média, R$ 220. “Trabalho como pespontador em casa e meu salário é de mais ou menos R$ 600. Mas nem sempre tenho serviço, já fiquei mais de 15 dias sem receber nada. Quando acontece isso, tenho que me virar. Faço tudo para ele se sentir bem e feliz”.
José Gaspar Oliveira, 41, morador no Jardim Brasilândia, é pedreiro e vive uma situação semelhante à de Abílio. Há um ano, sua mulher sofreu derrame cerebral e morreu. A partir daí, ele passou a cuidar de sua filha, Vitória Guiomar de Oliveira, 5, sozinho. Para ele, foi um susto. “Sempre fui um pai bastante presente, mas nunca imaginei ter esta responsabilidade sozinho.
No início, senti uma sobrecarga muito grande, mas hoje posso dizer que venci todas as batalhas. E ela sabe disso”, disse.
José deixa Vitória na creche próxima do bairro e tenta participar de todas as reuniões e datas comemorativas que a instituição faz. O Dia das Mães (o primeiro de Vitória sem a mãe), para ele, foi inesquecível. “Eu fui buscá-la na creche. Ela saiu toda sorridente com uma lembrancinha nas mãos. Era para a mãe dela, mas ela entregou o presente para mim, dizendo que queria me homenagear. Me emocionei muito”.
Orgulho. Para o pespontador Paulo Roberto de Almeida, 38, morador no Aeroporto III e pai de três filhos, Vinícius, 11, Wagner, 5, e Vitor, 4, o significado desta palavra resume todo seu sentimento por eles. Há mais de três anos se separou da mulher e passou a criar seus filhos. Ele conta com a ajuda de sua mãe e mora nos fundos da casa dela. Paulo sai para trabalhar às 5h30 e deixa as crianças com ela. “Eu preciso trabalhar.
Ainda bem que tenho minha mãe para ajudar durante a semana”, disse. Paulo chega por volta das 19 horas e é recebido com beijos e abraços. “Fico muito contente de vê-los. Eles esperam eu chegar para jantarmos juntos. Para mim, é uma prova de amor”.
Nos finais de semana, Paulo reserva todo seu tempo a eles. “Dou banho, arrumo a casa, compro roupas, sapatos e brincamos muito também”. Por medo, ele não pensa em arrumar uma namorada. “As crianças ainda são pequenas. Além de ter medo de alguém judiar delas, eu quero reservar todo o tempo que eu tenho dando carinho e atenção a elas”
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