N a semana passada, mais precisamente na quarta-feira, enquanto o País assistia ao show de horror promovido pelos nobres deputados federais durante a apresentação do conteúdo das caixas-pretas do Airbus A320 da TAM, o governo federal reunia-se com o Conselho Nacional de Políticas Energéticas. Na pauta, o risco iminente de falta de energia elétrica no País nos próximos anos.
Especialistas e empresas privadas já vinham sinalizando que o País caminha para um novo apagão elétrico e se o tal do ‘espetáculo do crescimento’ for possível nas atuais condições políticas e emocionais da nação e se ele realmente acontecer, certamente nosso banho de cada dia ficará pelo menos mais curto e certamente mais caro.
Baseado sempre em dados concretos, muito bem elaborados por gente da mais alta competência técnica e com a velocidade de um paquiderme encalhado, o Estado brasileiro apressou-se em reunir as mentes brilhantes instaladas no planalto para num golpe de sorte encontrar uma saída à nova crise que se aproxima, já que neste caso especificamente poderemos ficar inclusive sem a luz do fim do túnel.
Depois de um longo debate embasado nos mais sólidos, técnicos e científicos dados, o conselho, do alto de sua competência, técnica e científica garantiu que não haverá risco de apagão elétrico nem a curto, nem a médio, nem a longo prazo. Inclusive o ministro interino de Minas e Energia afirmou que ‘só haverá problemas se formos muito incompetentes’. Conclusão?
Prepare-se, teremos apagão elétrico em breve. Afinal de contas a experiência mostra que sempre que alguém do governo diz que determinada crise não existe é porque ela existe mesmo.
Talvez seja adequado que o apagão elétrico surja de preferência o mais rápido possível, assim quem sabe, tomando banho gelado todas as noites após um exaustivo dia de trabalho para pagar impostos, juros estratosféricos, pedágios, salários exorbitantes para inoperantes homens públicos, nós, trabalhadores brasileiros consigamos despertar da anestesia, do sono profundo no qual estamos mergulhados desde o ‘fora Collor’.
No escuro do apagão elétrico vindouro, pelo menos seremos poupados do noticiário medíocre que todas as noites nos faz perder o paladar do jantar ao ouvirmos mais uma denúncia contra aqueles, que eleitos por nós, pagos por nós, só fazem enriquecer seus verdes campos.
Até lá, enquanto há luz, vamos assistindo a tudo que há de mais bizarro na condução de uma nação que pretende ser desenvolvida. Do adultério a fraude fiscal. Da quebra de decoro à nudez venal.
Fora isso, pela quinta vez consecutiva (recordar é viver: mensalão, caseiro Francenildo, dossiê tucano e Vavá), o líder maior da nação admitiu que não tinha conhecimento da gravidade dos problemas no setor aéreo, disse também que o setor se parece com ‘cachorro de muitos donos’ que acaba morrendo de fome pois ninguém o alimenta.
Isso me fez lembrar a historinha chamada “Não é Comigo”.
Nela quatro pessoas, chamadas “Todo Mundo”, “Alguém”, “Qualquer Um” e “Ninguém”, tinham um importante trabalho a ser feito e Todo Mundo tinha certeza de que Alguém o faria, porém Alguém zangou-se porque era um trabalho de Todo Mundo. Todo Mundo pensou que Qualquer Um poderia fazê-lo, mas Ninguém imaginou que Todo Mundo deixasse de fazê-lo. No final, Todo Mundo culpou Alguém quando Ninguém fez o que Qualquer Um poderia ter feito.
Alexandre Leonel é farmacêutico e integrante do Conselho de Leitores do Comércio
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