13 de setembro de 2006, uma quarta-feira. O pedreiro Norival Américo, 42, passou o dia retirando ferragens num terreno no City Petrópolis. Ele tinha ganhado os materiais para começar a construir sua casa numa área do Jardim Luiza I. Não deu tempo de iniciar o imóvel. Norival foi espancado e morreu um dia depois.
Familiares disseram que ele era usuário de drogas e se envolveu em briga com traficantes. Sua mulher, a costureira manual Silvana Pereira Silva, 37, e três dos dez filhos não conseguem esquecer a maneira como encontraram Norival. Era noite quando, com auxílio de uma lanterna, encontraram o marido caído no lixão. “Ele estava deitado de bruços, com a perna quebrada e tinha os braços queimados. As formigas já estava comendo ele”. O pedreiro ficou internado um dia na Santa Casa, mas não resistiu.
Desde que ficou viúva, Silvana se vê obrigada a conviver com as cenas da morte do marido e a lutar para ter com o que alimentar os oito filhos que moram com ela. Eles têm 17, 14, 13, 12, 11, 9, 8 e 5 anos de idade; os outros dois são casados. “Meu marido era pedreiro e cuidava da casa quando tinha emprego. Eu também conseguia costurar sapatos ou trabalhar como servente quando ele era vivo. Assim já estava difícil, agora sem ele, com tantos filhos para criar, ficou pior ainda. É uma luta para ter o que comer”, disse.
A família vive numa casa emprestada no Residencial São Domingos. O local tem três cômodos e poucos móveis. Faz quatro meses que a água está cortada por falta de pagamento. Silvana e as crianças usam uma carriola e algumas garrafas de plástico para buscar água doada pelos vizinhos. Os banhos não são de chuveiro. Os moradores usam um tambor de plástico para se lavarem. “Minha caixa d’água só está cheia porque pedi ao vizinho e enchi para garantir água por mais uns dias”. A energia ainda é fornecida, mas deve ter o fornecimento suspenso. Dois talões de R$ 103 e R$ 54 não foram pagos.
Silvana e os filhos sobrevivem com doações. Os alimentos ganhos, porém, estão quase no fim. Ontem, a geladeira, que está com problemas, conservava apenas um galão de água, uma garrafa com um pouco de refrigerante e uma cabeça de cebola. No outro canto da pequena cozinha, o armário armazenava um pacote de arroz, dois de fubá e um litro de óleo. “É o que temos para comer. Faço arroz e feijão para economizar o gás, que está acabando e não tenho dinheiro para comprar outro”.
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Desempregada, Silvana não tem renda fixa. Às vezes, a filha de 17 anos é contratada como faxineira. Silvana e os filhos de 12 e 13 anos catam materiais recicláveis para vender. Com a mesma carriola usada para transportar a água, percorrem os bairros próximos ao Residencial São Domingos. Da última vez, conseguiram pedaços de ferro e latinhas e venderam por R$ 13 para um depósito de sucatas. Usaram o dinheiro para comprar dois litros de óleo e carne. “Cato para ajudar dentro de casa, ter o que comer”, disse o estudante Felipe, 13. “Quando não estão na escola, eles pegam latinhas, papelão e PETs para vender. Eu cuido dos outros meninos”, disse a mãe.
O Bolsa Família, que pagava R$ 95 por mês, está suspenso, pois o marido era o titular. A costureira poderia estar recebendo R$ 112 mensais, pois o benefício foi reajustado, mas a atualização do cadastro ainda não foi efetuada pelo governo federal. Ela terá de aguardar. A pensão do marido também não foi liberada. “A advogada está cuidando. Não sei se dará certo”.
A diretora da Divisão Municipal da Criança e do Adolescente, Fabiana Diniz, disse que, com a morte do marido da usuária, os dados do Bolsa Família precisaram ser atualizados. “Ainda não obtivemos o retorno no governo federal. O cartão no nome da Silvana, tendo a como titular, não tem data para chegar. Mas deve estar a caminho”.
A alternativa seria incluir Silvana no programa de transferência municipal, o Renda Mínima, mas não há vagas. “Trabalhamos com um limite. Para ela entrar, outra família teria de ter desistido”, disse Fabiana. A Prefeitura disse que o Cras (Centro de Referência e Assistência Social) da região Norte visitará a família na sexta-feira para verificar a situação. “Tomara que consigam me ajudar”, espera Silvana.
Quem quiser ajudar Silvana deve enviar as doações para o endereço dela: Rua 25, sem número, no Residencial São Domingos.
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