É da mais alta importância, neste momento, a afirmação do instrutor da Airbus encarregado de treinar os pilotos da TAM, inclusive os do acidente, de que o sistema de computadores de bordo equaliza os motores, levando-os a executar apenas uma tarefa ao mesmo tempo, nunca a ações opostas. Coloca taxativamente como impossível a hipótese levantada de que, por causa da posição da manete, um motor “puxava” e outro “empurrava”. Esse profissional, que fala com embasamento técnico de quem representa o fabricante e tem a missão de treinar a tripulação, diz também ter a certeza de que, quando tocou o solo, os pilotos colocaram as manetes na posição certa.
Embora não descarte a possibilidade de erro humano em outros procedimentos, também considera a pista escorregadia como contributiva para o acidente. Suas palavras não podem ficar soltas ao vento.
A cada dia torna-se mais nebulosa e preocupante a história do acidente de Congonhas. Autoridades da área falaram inicialmente na falta de ranhuras e de escape na pista, depois especulou-se sobre erro humano e agora pensa-se em defeito eletromecânico do avião. O certo é que todas as variáveis de segurança foram rompidas e o acidente aconteceu, com quase 200 mortos.
Isso coloca a nu a fragilidade do setor até então tido como seguro e moderno. Vimos, incrédulos, a questão dos controladores, as trapalhadas do governo, a desídia das companhias aéreas com seus milhares de passageiros represados nos aeroportos, e a existência de um sistema pessimamente gerenciado por órgãos afins que foram retalhados e distribuídos para atender a interesses políticos. Isso tudo precisa ter um fim e não pode custar mais vidas!
Temos motivo para acreditar no que diz o instrutor da Airbus, que em razão da função, tem conhecimento técnico e informações privilegiadas do fabricante sobre esta aeronave. Compete às autoridades aeronáuticas descer fundo às investigações e, por uma questão de segurança imediata, suspender a operação dos aviões da Airbus em todo o território nacional até que se esclareça quanto ao vício ou falha técnica como causa da tragédia de Congonhas. É melhor parar por algum tempo do que continuar expondo centenas, até milhares, de passageiros ao desconhecido. A Airbus, com a experiência de ocorrências parecidas registradas no exterior certamente terá como esclarecer a questão ou, se não o fizer, corre o risco de ter seus aviões expostos ao descrédito mundial. Se isto vier a acontecer, perderá o mercado, pois ninguém mais comprará seus produtos, nem neles voará...
As autoridades devem à comunidade mais do que as informações sobre as causas dos dois grandes acidentes, o do Boeing da Gol e o do Airbus da TAM. Conhecidas as causas, espera-se a imediata correção dos pontos falhos, a completa reestruturação aeroportuária e de controle de vôo e fiscalização rígida sobre os esquemas de manutenção e procedimentos das companhias aéreas.
A tragédia não poderá, em hipótese alguma, servir de cortina de fumaça para esconder a corrupção, o descalabro e a incompetência administrativa que grassa nos diferentes quadrantes nacionais.
Dela só se poderá tirar lições capazes de garantir que nunca mais se repetirá. Tudo o mais é pura irresponsabilidade.
DIRCEU CARDOSO GONÇALVES, Tenente, é presidente da Associação dos Policiais Militares do Estado de São Paulo (APOMI)
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.