Ir para o ponto de ônibus, aguardar a chegada do veículo, estender a mão, enfrentar um empurra-empurra e ficar em pé durante toda a viagem que costuma durar mais de uma hora. Se para muitos essa rotina é sinônimo de chateação, para o aposentado Wadih Chahoud, 78, a história é diferente. Andar de ônibus pela cidade, para ele, é um passatempo. Chahoud faz, em média, dez passeios por dia e garante ter conquistado novas amizades e vivido momentos inesquecíveis.
A história de vida desse senhor começa do outro lado do mundo. Em 1977, ele deixou sua cidade natal, Damasco, na Síria, e desembarcou em Franca. Aqui se casou e construiu uma vida estável. Depois de décadas de trabalho duro se aposentou. Há um ano e meio, ficou viúvo e sentia-se muito sozinho. Foi quando decidiu preencher o vazio que sentia durante o dia com passeios de ônibus.
Com o cartão de passe gratuito e um ponto de ônibus localizado em frente a sua casa, na Rua General Telles, ele passou a se divertir viajando pela cidade. E gostou.
No começo, Wadih pegava qualquer linha que passasse em sua rua. Por não ser brasileiro, ele não sabe ler português e subia no primeiro ônibus que viesse. Depois de algumas viagens, acabou despertando a curiosidade de muitos motoristas e cobradores. “No ponto final, eles perguntavam se eu não ia descer. Então falava a eles que só estava dando umas voltinhas”.
Com o tempo, Wadih fez amizades e começou a marcar os horários para pegar os ônibus. Atualmente, ele chega a fazer dez viagens por dia. Os passeios começam logo pela manhã. “Levanto cedo, às 6 horas, faço uns alongamentos, tomo café, escuto meu radinho e lá para as 8h30 pego o primeiro ônibus”, diz. Por volta das 20 horas, ele volta para casa. “Tomo banho, janto e descanso para o próximo dia”.
Suas linhas preferidas são as do Jardim Aeroporto I, II e III, Vera Cruz e Leporace. “Nelas, os motoristas e cobradores são legais e já se tornaram meus amigos. Além dos passageiros de sempre”.
Há um ano e meio passeando mais de dez vezes ao dia, Wadih tem muitas histórias para contar. Até uma namorada ele conseguiu arrumar dentro dos ônibus. “Ele namorava uma mulher que morava no Jardim Francano. Quando chegava na rua da casa dela, descia. Só assim também para fazer ele descer de um ônibus”, conta o comerciante Said Chahoud, 42 filho de Wadih.
Herói em um assalto dentro do ônibus, o aposentado afirma que salvou a vida do cobrador e do motorista. “Estávamos no ponto final e entrou um assaltante com uma faca. Ele não tinha me visto, então levantei minha bengala e comecei a bater no cara, que saiu correndo”, conta.
O filho de Wadih garante que o pai ficou mais feliz desde que começou a andar de ônibus. “Meu pai é uma figura. Ficou abalado com a morte da minha mãe, mas andando de circulares fez bastante amigos”, disse.
Para o aposentado, o transporte coletivo é um meio de fazer grandes amizades. “Eu converso bastante, dou umas paqueradas nas meninas e quero arranjar uma parceira dentro de um deles”, disse. Wadih pretende continuar os passeios até quando agüentar. “Enquanto tiver pique, quero continuar andando de ônibus. É muito bom”, disse ele à reportagem do Comércio para depois entrar no ônibus para fazer uma foto e não querer mais descer.
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