Criado pela família Samello, encampado pela Unifran e reinaugurado há dois meses em um bonito casarão ao lado da catedral, o Museu do Calçado ‘Wilson Sábio de Mello’ é um empreendimento elogiável. Mas pouco informa sobre o passado da indústria calçadista francana, função que julgamos importante.
Embora sejamos analfabetos em museologia, ousamos opinar sobre a organização desse museu. Predomina nele a exposição de calçados, divididos em três grupos: modelos fabricados em alguns anos do século passado, outros que eram usados em vários países e os doados por personalidades de fato e imaginárias.
Não há qualquer referência sobre os sapatos ‘datados’, se representaram, por exemplo, alguma evolução nas técnicas e tecnologias aplicadas na sua fabricação. Se o visitante for ignorante no assunto (nosso caso), olha o lote e não entende o que aquilo significa. Fica com a impressão de ter entrado na sala de amostras de uma indústria. ‘Esse é bonito, aquele nem tanto’, limita-se a comentar.
Mesmo a única foto exposta nada revela e motiva interpretação equivocada. Mostra um grupo de 17 pessoas, com seus nomes. Por ser um museu do calçado, imagina-se que são funcionários de alguma fábrica antiga e que empregava mão-de-obra infantil, pois aparecem quatro crianças (filhos do Wilson Mello).
Uma das duas pinturas dependuradas na sala principal do museu é do grande Hélio Tasso O primeiro sapateiro e a evolução: Ovídio José Vanini. Ex-funcionário da Jaguar (primeira fábrica de calçados da cidade a mecanizar a produção, em 1920), Vanini tornou-se fabricante e não foi o primeiro sapateiro francano. Ninguém sabe quem foi e nunca saberá (não há esse registro).
Outro engano (lapso, dizia o saudoso Tomás Novelino) é atribuir ao padre Alonso Ferreira de Carvalho a fundação do primeiro curtume de Franca, em 1886. É uma afirmação oficializada, generalizada em todos os trabalhos acadêmicos e que aparece também no site do museu. O pioneiro é desconhecido (seu nome sumiu na poeira dos tempos, no dizer d’antanho).
E mais: padre Alonso financiou a instalação do segundo curtume, o Cubatão, e do terceiro (Progresso, ex-Coqueiros), conforme demonstramos tenha uma monografia que estamos escrevendo sobre a origem do pólo calçadista francano. O Savegnago ocupa hoje a área onde estava o curtume Cubatão e no pedaço do muro de pedra que sobrou o supermercado colocou uma placa enfatizando o engano.
Enfim, faltam informações no museu. No momento é interativo: o visitante precisa interpretar o significado de parte do acervo. Supomos que a Unifran tenha conhecimento dessa falha e pretenda corrigi-la. Por enquanto, ali é apenas um casarão bonito, com uma área externa agradável para tomar um cafezinho.
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