No final da tarde de segunda-feira passada, o céu parecia ter sido pintado à mão: era um mármore azul desbotado em borrões de nuvens nuns tons que saíam do branco e desaguavam em alaranjados e lilases. Minha sogra, no banco de trás do meu carro, olhou esse céu e murmurou, em voz baixa, resignada: ‘Que tarde triste, meu Deus”. (para Maria Aparecida Coelho).
Sim, era uma tarde especialmente triste para ela, talvez uma das mais melancólicas que essa mulher tenha vivido: voltávamos de carro do enterro de seu filho mais velho, meu cunhado, que sofrera parada cardíaca na noite anterior.
Uma mãe perdera um filho. A mãe que dera um ser humano à luz, acabava de retornar sua cria à terra, numa inversão da lógica a fragmentá-la em pedaços de angústia, incredulidade, não-aceitação. Era essa mãe, rodeada de cuidados, acompanhada por dezenas de familiares e amigos, era, ainda assim, a imagem da solidão mais profunda que se pode sentir, na constatação da finitude.
Por mais que saibamos conscientemente que a morte é uma parte inseparável da vida, que o falecimento significa transformação, de uma forma geral nós não a aceitamos facilmente, nós a amaldiçoamos porque nos sentimos impotentes diante de suas imposições, principalmente porque reconhecemos, na perda de alguém, a falta, a saudade, sobretudo, uma experiência para a qual nascemos predestinados. Mas é justamente por essa imensa dificuldade que quase todos nós temos em admitir a morte que ela se faz tão assustadora.
Há uma parábola zen budista que ilustra muito bem isso. Consta num dos Sutras que uma mãe chegou à casa de Buda com o filho morto nos braços, suplicando que ele o fizesse reviver.
Cuidadoso com essa mãe, sobretudo com as suas esperanças, ele não lhe disse da impossibilidade de ressuscitar o menino. Buda pediu a essa mulher conseguisse alguns grãos de mostarda, colocando, porém, uma condição: para trazer o menino de volta à vida, esses grãos deveriam vir de uma residência onde nunca houvesse morrido ninguém. A mãe andou todo o vilarejo, bateu de porta em porta, sem encontrar uma única casa sequer livre de perda.
Se não conforta, essa história ao menos nos diz algo óbvio desse momento em que o indizível se impõe, do sentimento de perda, da forma de sofrimento que palavra nenhuma aplaca: que a morte desorganiza e deprime, mas é comum a todos os viventes.
O passo seguinte à melancolia, à dor da perda, é a elaboração do luto: a angústia se transforma em saudade, não menos dolorosa, mas diferente do choque inicial e com a qual conseguimos conviver, na idéia de que, mesmo com outro significado, a vida continua.
UM POUCO DE TEORIA PARA ENTENDER
No texto “Luto e melancolia”, Freud explora a noção da perda. A característica mais marcante apresentada pelos melancólicos é a insatisfação consigo próprios e as auto-acusações destrutivas que fazem a si mesmos publicamente, como se sentissem culpados da morte ou do abandono do ente amado. Freud descobriu o mecanismo em jogo na melancolia: as recriminações são internamente dirigidas ao ser amado que nos deixou - mas que, por força das circunstâncias, não podemos assumir- , por isso, são deslocadas para nós mesmos. Assim, a perda do ente querido, na realidade, num nível mais profundo, significa, simbolicamente, uma espécie de “perda do eu”, para a Psicanálise, ou ainda: já que não podemos bradar conta quem nos deixar, bradamos contra nós mesmos.
DA MELANCOLIA AO LUTO
A origem do sofrimento melancólico situa-se na dependência desse outro que nos deixou e isso garante a sustentação psíquica da melancolia. Na falta, no abandono ou no desprezo deste outro, o melancólico mergulha numa profunda crise narcísica, retorna à desilusão, acredita que é vítima do destino, e que nada ou ninguém conseguirá ajudá-lo.
O luto, a fase seguinte e desejável nesse processo, se dirige para uma “renúncia” ou deslocamento do objeto perdido. Freud apontou o mecanismo da sublimação, isto é, o envolvimento com atividades que permitam o paciente experimentar um prazer de natureza estética como um caminho para a elaboração da perda, embora reconhecesse que este mecanismo não estivesse disponível a todos.
NOVOS SIGNIFICADOS
De qualquer modo, o trabalho psicanalítico ajudará a pessoa a se reapropriar de sua história e ressignificar as experiências, a fazer um pacto com o desejo de viver. O mais importante é que o paciente descubra algo que mobilize o seu desejo, que possa retirá-lo do estado de queixa. O sujeito melancólico permanece preso a uma situação de inércia e negativismo que o torna vítima de uma pseudo-impotência. Diz Lacan que é preciso levá-lo a discriminar o que é da ordem da impotência e o que é da ordem da impossibilidade.
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