No artigo ‘Eleições à vista’, eu disse que um bom prefeito, um bom vereador, deve amar incondicionalmente a cidade, pois quem ama cuida; precisa querer servir à cidade e não servir-se dela, nem servi-la aos parentes e amigos; ter probidade; ser na campanha como é e não como o mandam ser. Nada de falsa simpatia, tapinha nas costas do eleitor e depois meter a mão no Erário. Não precisa ser perfeito, mesmo porque ninguém o é. Nem mágico, principalmente daqueles que fazem sumir dinheiro.
Volto ao tema a fim de chamar a atenção para alguns aspectos importantes. Muitos eleitores, desiludidos, abstêm-se ou votam em branco ou nulo para protestar contra a falta de ética, a corrupção e o descumprimento das leis pelos políticos. Taí um erro. A imagem negativa dos políticos é notória, mas eles, na maioria, são malvistos porque dão motivo. E é por isso que o eleitor não pode fugir do dever do sufrágio; deve conscientizar-se de que a mudança do atual caos político-administrativo dos municípios depende dos cidadãos. Existem pessoas com perfil para ser um bom prefeito, um bom vereador, mas que se mantêm distantes da política porque a associam à sujeira, à improbidade, à corrupção, e não querem ver-se envolvidos nisso. É outro erro. Se quem pode mudar o quadro não se dispõe à luta, tudo permanecerá igual, as cidades continuarão nas mãos dos mesmos.
O voto nulo ou em branco não muda nada. Pior: revela descaso do eleitor com o destino da sua cidade, e isso é o mesmo que não se preocupar com seus filhos, sua família, seus amigos, seu trabalho, sua comunidade. A cidade precisa de prefeito e de vereadores, assim como a família precisa de um ‘pater’, a empresa de diretor, de gerente, o navio de um comandante, o time de futebol de um técnico, etc. Há que se ter comando. E o comando deve ser bem escolhido. Os Estados e a União são entes abstratos. O município não. É na cidade, no município, que estão a rua em que moramos, nosso trabalho, nosso lazer, a escola dos nossos filhos, as pessoas da nossa convivência. O município é um ente concreto, com coisas concretas, onde as pessoas vivem e se realizam como sujeitos de direitos e obrigações. Daí a necessidade de uma maior preocupação em melhorá-lo na medida do possível e impedir que perca o que tem de bom. Reclamar apenas não adianta. Cada munícipe tem o dever de zelar pelo lugar em que vive. Uma das formas de fazer isso é estimular pessoas com bom perfil a se candidatarem a prefeito, a vereador. Não basta esperar o dia de votar e escolher o menos pior. É preciso ter na lista de votação o nome de quem é o melhor.
Matéria da revista Veja de 27/4/04 revela o quanto é grande a corrupção na esfera municipal. Um volume gigantesco de dinheiro, que daria para sanar inúmeros problemas, simplesmente desaparece. E é notório, mas as pessoas apenas reclamam e vão tolerando, tolerando... Passou da hora de mudar isso. Vamos permitir que as cidades sejam comandadas sempre pelos mesmos grupinhos, as mesmas ‘panelinhas’? Que democracia é essa? Sempre na mão de meia dúzia de pessoas, as cidades estão cada vez piores, mais deterioradas, mais perigosas, mais desgovernadas, mais prejudicadas pelo desvio de verbas. A democracia pressupõe alternância no poder. As cidades não pertencem a um grupinho, mas a todo o povo.
Deve-se também fiscalizar os candidatos, denunciar abusos e ilegalidades, como propaganda irregular, compra de votos, uso do dinheiro público na campanha, etc. Muito comum em tempos de campanha é a transferência fraudulenta de títulos de eleitor, que pode alterar o resultado do pleito, principalmente nos municípios menores. Por isso, eleitor, não se omita, não fuja da luta, participe do processo democrático, exerça de fato a cidadania, procure influir positivamente nos rumos da sua cidade. O exercício da cidadania não se resume ao voto. É necessário lutar a partir de agora para não se arrepender depois.
PAULO PEREIRA DA COSTA é Promotor de Justiça em Piracicaba
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