Cavalhadas


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Um grande campo de batalha onde cristãos enfrentam muçulmanos. Não, não estamos falando dos atuais conflitos no Oriente Médio e sim das Cavalhadas. A festa folclórica que representa a guerra entre cristãos e mouros (muçulmanos) durante o império de Carlos Magno, no século 8 d.C., será encenada hoje e amanhã no Parque de Exposições “Fernando Costa”. O evento tem início hoje, às 19 horas, com a apresentação de grupos de Folia de Reis e Congada. Logo depois, acontece o primeiro confronto entre os reis - cristão e mouro - chamado de Cerimônia dos Encamisados, em que um monarca tenta converter o outro às suas crenças. Como os reis não entram em acordo, vão ao campo de batalha. No domingo, a festa começa às 12 horas, também com os grupos de Congada e Folia de Reis, e às 13h30 tem início as evoluções dos cavaleiros até a última batalha, quando os cristãos conquistam o castelo mouro e os muçulmanos se convertem ao cristianismo. Participam das Cavalhadas os grupos Folia de Reis Marinheiros Francanos, Companhia de Reis Três Reis Magos do Oriente, Folia de Reis Salve os Três Reis Santos, Folia de Reis Divino Espírito Santo, Grupo de Congada Marinheiros de Franca e Grupo de Congada Três Colinas de Franca. O diretor de Cultura Sérgio Menezes ressalta que as Cavalhadas são um momento de grande importância para a cidade. “O evento abre espaços para divulgar um lado da cultura local muito pouco conhecido pela população”. A realização do evento é uma parceria entre a Divisão da Cultura e o Clube das Cavalhadas, que foi fundado em 1998. As Cavalhadas foram tombadas pelo Condephat (Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Franca) em 1996 e se tornaram patrimônio histórico e cultural de Franca. “O primeiro registro que se tem deste evento na cidade é de 1836, nas atas da Câmara Municipal. Com certeza este é o nosso evento mais importante do ponto de vista cultural e folclórico”, disse Fernando Américo Palermo Faleiros, presidente do Clube. CONTANDO A HISTÓRIA No fim do século 8 d.C., Carlos Magno, de religião cristã, investiu contra os sarracenos (árabes), de religião islâmica, para impedi-los de invadir o sul da França, o centro da Europa. “A Batalha de Carlos Magno e os 12 pares da França”, como ficou conhecido o conflito, tornou-se um símbolo da resistência e avanços da religião cristã na luta por terras e novos fiéis. No século 18, motivada por novos conflitos religiosos, a rainha Isabel, de Portugal, instituiu as Cavalhadas, representação teatral da luta. São 13 cavaleiros mouros, vestidos de vermelho, e 13 cristãos, com vestimentas azuis. Durante a batalha, a princesa moura, representada por Júlia Lemos Luz, de 14 anos, é raptada pelos cristãos, que vencem a guerra e ainda conseguem converter os mouros ao cristianismo. A princesa é a primeira a se converter e convence seu pai a se tornar cristão. “Na história, o rei mouro diz à sua filha que as batalhas não seriam capazes de convertê-lo ao cristianismo, mas as suas lágrimas sim”, disse Faleiros. As Cavalhadas de Franca têm a participação indireta de 80 pessoas, das quais 27 participam da simulação de batalhas com lanças, espadas e garruchas, travando os diálogos ao som de músicas de guerra e de marchas militares. Trazida para o Brasil pelos portugueses, a tradição de representar a batalha entre as duas religiões é característica nas regiões próximas a Minas Gerais. “Os mineiros são descendentes diretos dos portugueses”, explicou o historiador José Chiachiri Filho. PASSADO E PRESENTE Chiachiri Filho também ressaltou que a História não se repete, mas existem semelhanças entre os conflitos entre o Oriente e o Ocidente da época das cruzadas e os de hoje. “Hoje não é cruzada, é burrada o que acontece. A inspiração para essas guerras é religiosa, mas por baixo há interesses comerciais, assim como naquela época também havia”, afirma. No caso da guerra entre Estados Unidos e o Iraque, o interesse maior para o ocidente é o petróleo que existe na região oriental. “Apenas para o ocidente a guerra se justifica por motivos religiosos. Mas o homem é sempre o mesmo, tem paixões, vaidades, interesses, ganância, ambição. O homem não mudou muito de lá pra cá”. As justificativas religiosas e os sentimentos humanos seme-lhantes se unem à tradição de origem portuguesa (com muitos descendentes em Franca) para motivar a população a manter viva a rixa que parece ser infindável entre muçulmanos e cristãos, preservando a beleza do espetáculo e o prazer pela montaria.

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