Professor e qualidade de ensino


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O ensino será o que forem os professores, porque o bom professor faz o bom ensino, apesar de todas as precariedades de meios que vierem a cercar o seu trabalho. Se essa é uma regra para todos os níveis de ensino, valerá muito mais para o ensino fundamental e, dentro dele, para as suas séries iniciais. A obra da educação nessa fase vive das impressões que a presença do mestre causa na criança. Esquece-se a lição, não se esquece a influência marcante do professor. Só com o professor satisfeito e seguro, preparado e afetuoso se formará a criança, porque a educação sempre se fará apesar do ensino, desde que haja um clima de simpatia no relacionamento entre o mestre e o discípulo. O que se observa hoje, entre nós, é uma incompreensível indiferença em relação ao professor, principalmente os das séries iniciais. Desvalorizado profissionalmente, mal pago e desestimulado pela falta de perspectivas de realização pessoal, vai o mestre-escola perdendo o interesse pelo que faz, em detrimento da obra educacional que lhe está confiada. A isso se pode, sem exagero, chamar de desastre nacional. Por isso, não basta afirmarem políticos e educadores ser o ensino a maior prioridade nacional e entenderem que, ao garantir vagas nas escolas para todas as crianças de 7 a 14 anos, terão cumprido o seu dever. Tão importante quanto assegurar a existência de vagas é conceder apoio ao professor. O primeiro apoio, se bem que não o único, é o que diz respeito ao regime de trabalho do professor e, por conseguinte, à sua remuneração. É um fato notório dos trabalhadores qualificados deste País, poucos ganharão pior do que o professor, especialmente aquele das séries iniciais de ensino fundamental. A explicação que se dá é sempre a mesma: há professores demais na rede escolar e dinheiro de menos nos orçamentos públicos. Afinal, qual é o preço do trabalho do professor de primeiras letras? O mesmo preço do destino de um povo, se é que este possa ser estimado em custos financeiros. Há regiões onde o professor ganha menos que o salário mínimo. Foi-se o tempo em que, num Estado como São Paulo, o professor primário ganhava tanto quanto o juiz de direito, sendo ótimo partido para as meninas casadoiras ou, quando mulheres, para os rapazes sem profissão definida, nem renda própria. O baixo rendimento escolar no ensino fundamental, que tanto preocupa os estudiosos do setor, não será corrigido apenas com a remessa do professorado a reuniões, encontros e até cursos de atualização e aperfeiçoamento didático. Esse é um procedimento com o qual se gastam verbas polpudas e não raro se desperdiçam esforços hercúleos para, ao final, obter-se um resultado próximo a nada. Preocupado com a sobrevivência no dia-a-dia, fazendo milagres para manter-se e manter sua família num estilo de vida fronteiriço à miséria, tendo que trabalhar num segundo emprego ou, quando não, dando aulas em vários estabelecimentos de ensino, como se fora máquina, o professor não reúne um mínimo de condições psicológicas para melhorar os padrões didáticos à custa de novos cursos e novos seminários de estudo. No momento em que o professor for pago convenientemente, voltarão a povoar-se as escolas normais e as faculdades de filosofia, os concursos ao magistério terão mais e melhores candidatos, o nível de ensino se qualificará e uma gama imensa dos atuais problemas escolares se resolverá como por um passe de mágica. E o que é mais importante, o futuro da nação estará mais bem assegurado do que esteve no passado e está no presente. PAULO NATHANAEL PEREIRA DE SOUZA é doutor em educação e presidente do Conselho de Administração do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE)

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