Pobre por não ter dinheiro. Não ter dinheiro por não ter emprego. Não ter emprego por não ter estudo. Não ter estudo para não reclamar a falta de dinheiro. Ter a televisão para consolar.
Um estudo recente elaborado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) concluiu que, nos países emergentes e nos países em transição, são constatados os maiores índices de doenças provocadas por problemas no ambiente. Elas são chamadas de doenças ambientais porque estão diretamente relacionadas tanto com a degradação do próprio ser humano quanto pela degradação ambiental.
A exposição das pessoas a fatores de risco ambiental provoca cerca de 233 mil mortes todos os anos. A poluição da água, do ar, o estresse do trânsito, a depressão, a falta de higiene, e a ausência de políticas públicas voltadas para o ambiente como um todo são os principais coeficientes dessa realidade. O Brasil tem uma população urbana de 84%, ou seja, a maioria esmagadora da população brasileira vive nas cidades, fato que, segundo as estatísticas, provoca quase 13 mil mortes todos os anos, em razão da poluição do ar advinda do excesso veículos nas ruas e também da atividade industrial.
O modelo desenvolvimentista adotado por essa civilização tem contribuído decisivamente para os riscos de novas epidemias, ou porque não pandemias, tendo em vista que não há estudo criterioso sobre os riscos que as novas tecnologias oferecem à população mundial. O fator pobreza, em seu sentido mais amplo, é o que mais influencia para o aumento da poluição e das doenças ambientais.
Numa favela, por exemplo, o esgoto corre a céu aberto e a maioria dos habitantes não tem emprego, sobrevivendo, em muitos casos, a partir dos restos de alimentos contaminados recolhidos junto aos aterros sanitários. Milhões de pessoas não têm acesso à água limpa. A água é fonte de vida, porém, poluída, é o veículo da morte.
O problema ambiental enfrentado pelos brasileiros sinaliza uma situação que não pode ser vista unilateralmente e de forma demagógica. As principais frentes de trabalho empreendidas nesse campo deveriam começar pela educação e sensibilização quanto aos riscos a que toda a população está exposta por não respeitar o ambiente em que vive. ‘O farfalhar das asas de uma borboleta na Terra pode provocar um terremoto em Marte’.
Parece coisa de ambientalista mal resolvido, mas não é. Nossas ações contra o ambiente não são locais, são globais. Uma pequena atitude a favor ou contra o ambiente influencia todo o planeta.
A maioria dos países europeus já se prepara para enfrentar grandes epidemias nos próximos anos e põe em alerta países mal-administrados, como é o caso do Brasil, os quais não saberão como agir em face de tais acontecimentos, mesmo porque não possuem planejamentos estratégicos voltados para se defrontar com o esperado. Lembrando que planejar envolve a criação de cenários prováveis, improváveis e desejados. Da forma como o ambiente e a coletividade são considerados, serão necessárias muitas mortes e inúmeras doenças ao longo dos anos para que um dia alguém volte sua atenção para o problema.
O Brasil é o país do ‘deixa acontecer’, para depois se pensar qual atitude tomar. O amadorismo e o imediatismo do administrador demonstram a falta de seriedade, bem como a insignificância do cidadão perante aqueles que estão no alto de seu cargo e que, ao olharem para baixo, vêem apenas formiguinhas se movimentando num imenso formigueiro. Lá de cima não se vê muita coisa.
Seria necessário ‘descer’ as escadarias do trono e ouvir os ruídos estridentes da natureza e do cidadão que, achando-se impotentes, só esperam que dias mais justos nasçam nos horizontes cinzentos de suas vidas doentes e espoliadas.
NADIR A. CABRAL BERNARDINO é advogada, formada pela FDF, pós-graduada em Política e Estratégia e Direito Ambiental
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