O cheiro não foi bom


| Tempo de leitura: 3 min
Temos assistido como ondas, mas com constância, ao levante das elites econômicas (as classes média média e alta, inclusive) contra dois governos e de forma preconceituosa contra dois presidentes, Lula e Hugo Chávez. Um e outro espelham, em seu governo e projeto de sociedade, convergências e divergências. Lula e Chávez são fruto de um mesmo movimento de contestação aos programas neoliberais aplicados em seus países nas últimas décadas e, desde eleitos, imprimiram governos populares, priorizando com políticas públicas as camadas sociais marginalizadas, simbolicamente referenciados nos programas sociais Bolsa Família e Missões. Há diferenças na forma de governar? Há! Cada um é o resultado do processo histórico de seus respectivos países, governam conforme as complexidades de suas sociedades e com os atores sociais específicos de sua formação socio-econômica. Lula e Chávez têm personalidades diferentes; um forjou nas lutas sindical e social a capacidade de negociação, a busca do consenso; o outro, por sua trajetória, sabe o valor do enfrentamento para não sucumbir aos golpes daqueles que vêem seus privilégios serem eliminados. Apesar das diferenças existem características que os igualam: o projeto comum de superação de um modelo neoliberal de organização do Estado e o ódio que as elites locais devotam a eles. É a esta segunda característica que quero me ater. Em ambos os países, nos deparamos com as posturas radicalizadas das elites locais e da mídia em relação aos governos eleitos constitucionalmente e, de maneira preconceituosa, em relação aos presidentes. Em momentos delicados, como o vivido a partir do acidente do Airbus da TAM, em Congonhas, é possível perceber o grau de exaltação e a confluência de interesses entre uma elite e os principais veículos da mídia tradicional. Politizaram uma tragédia com o intuito de arregimentar mentes e corações para um movimento que estava para além do acontecido. Com esta observação não estou querendo dizer que todos devam apoiar o governo ou deixar de criticá-lo e que, muito menos, não tenham ocorrido erros na gestão da crise área. O governo federal errou, não soube conduzir de forma satisfatória as ações que encaminhassem para o enfrentamento da situação. Mas o que me assustou, mais do que no período anterior à eleição presidencial do ano passado, portanto, em um momento político por excelência, foi a engrenagem utilizada para fabricar e consolidar uma versão, propagando-a com a intenção de transformá-la em verdade definitiva. A semana que passou exarou um cheiro forte de golpe. Acredito que não existam as tais condições objetivas para tal, mas os líderes da elite econômica ensaiaram os primeiros acordes, ampliados pelos editoriais de jornais como o Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e O Globo. Até surgiu um movimento denominado “Cansei”, versão moderna da “Marcha da Família, com Deus”, que antecedeu o golpe militar de 1964. Há um segmento social, explicitamente a elite do Sudeste, que não se importa com o tipo de políticas públicas que o governo Lula desenvolva. Já fizeram uma opção política: são contra o governo independente da qualidade do que é realizado. Não há pontes entre eles e o projeto de sociedade defendido pelo presidente Lula. Estão, como é o desejo de um colunista de Veja, se movimentando para derrubar Lula. Estão radicalizados em sua opção política. JEFFERSON RIBEIRO é jornalista

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários