No meu livro O jornalismo dos anos 90 relato quase duas dezenas de casos de cobertura da mídia em que o “efeito manada” produziu erros gigantescos.
Aparentemente, não se aprende. A mais nova reedição do caso “Escola Base” está na cobertura do acidente com o Airbus da TAM, que vitimou mais de duzentas pessoas; o “japonês” do acidente aéreo foi um morto que não podia se defender: o piloto.
Com o choque inicial, logo após o acidente passou-se a uma busca frenética por culpados. Em um primeiro momento concentrou-se no governo, na pista de Congonhas, na falta de ranhuras no asfalto.
Deixou-se de lado o jornalismo para se ficar numa ladainha única, em que nenhuma outra hipótese era investigada. E essa algaravia escondeu outras interpretações comentadas por especialistas, mas que não chegavam às páginas dos jornais.
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Nos poucos momentos em que se permitiu um pouco de jornalismo, descobriu-se que o avião em questão estava com o chamado reverso pinado - um reverso inoperante. Reverso é um sistema inverte o empuxe do motor, ajudando a frear a aeronave.
Seguiu-se um festival de explicações “técnicas”, de que o reverso não era relevante, que seria apenas um luxo a mais nas aeronaves, que importante eram os freios e “spoilers”.
Quando a caixa preta (que grava as conversas na cabine) foi enviada para os EUA, acompanhada por uma comitiva de deputados, o discurso começou a se inverter. De repente, o reverso passava a ser importante porque, quando não está em funcionamento, exige uma nova posição dos manetes (os instrumentos que permitem ao piloto controlar a altura da aeronave). Se, na hora de pousar, o piloto não muda a maneira tradicional de colocar os manetes, os instrumentos eletrônicos de bordo interpretam como se ele estivesse querendo decolar. Em vez das turbinas reduzirem, elas aceleram.
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Ora, havia duas explicações para eventuais problemas com os manetes: ou erro humano ou problemas mecânicos. Sendo a segunda hipótese, estariam comprometidas a TAM, as autoridades aeronáuticas e, provavelmente, a Airbus.
Aí se viu na cobertura uma mudança de rota inacreditável.
Publicações capazes de atribuir ao governo até a responsabilidade pelas precipitações pluviométricas passaram a encampar a tese do erro humano, poupando as autoridades e sequer mencionando responsabilidades da TAM. O culpado passou a ser um morto, que não podia se defender.
Com a divulgação dos diálogos registrados na cabine, muda o quadro. Um piloto alerta o outro que o reverso esquerdo estava paralisado; o outro concorda. O que significa que pousaram sabendo como proceder. Nos diálogos, descobre-se que o “spoiler” - um sistema de frenagem mais potente que o reverso -não funcionou,que os freios provavelmente não funcionaram. Pode ter sido erro dos pilotos? Pode, mas numa probabilidade muito baixa.
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Semanas de cobertura intensiva desmentidas, todas as afirmações peremptórias desmascaradas, a voz do morto saindo dos arquivos da caixa preta para absolvê-lo.
Como ficamos? Como fica o jornalismo?
Tem que haver limites para o show.
INTROMISSÃO
O governo de Cuba participou da elaboração dos contratos de exploração de gás na Bolívia assinados pela Petrobras no ano passado, disse o promotor boliviano Alaín Canedo. Segundo o funcionário, o ex-presidente da YPFB (estatal boliviana do gás) Juan Carlos Ortiz afirmou que o anexo D do documento foi feito por funcionários da estatal Cubapetróleo. Além disso, Ortiz afirmou que os escritórios de advocacia americanos Curtis, Mallet-Prevost e Colt & Mosle foram contratados pela PDVSA (estatal venezuelana do petróleo) para ajudar na elaboração do contrato, como a Folha de S. Paulo revelou em outubro do ano passado. Segundo Canedo, os profissionais bolivianos que teriam redigido o contrato, segundo o também ex-presidente da YPFB Manuel Morales Olivera, “não tinham capacidade” para realizar a tarefa. O anexo D determina o “Procedimento Financeiro e Contábil” do contrato de operação assinado em outubro de 2006 com as empresas petrolíferas que atuam no país, como a Petrobras. Ele dá detalhes de como os custos das operações das petrolíferas serão calculados e registrados para que a YPFB possa aprová-los.
FGTS
Os trabalhadores que têm contas no FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) por um período mínimo de três anos pagarão juros mais baixos nos financiamentos habitacionais com recursos do fundo concedidos pela Caixa Econômica Federal. A redução, aprovada ontem pelo Conselho Curador do FGTS, é de 0,5 ponto percentual ao ano, mas só vale para novos contratos fechados a partir de 2008. Além de reduzir os juros para cotistas, os conselheiros decidiram ampliar o alcance dos financiamentos habitacionais com recursos do FGTS. A partir de agora, famílias com renda até R$ 4.900 podem tomar empréstimos do fundo para comprar a casa própria. Esse limite vale apenas para as capitais. Antes, a renda máxima era de R$ 3.900. Esse valor continua valendo para as outras cidades. A medida inédita faz parte de uma nova política do fundo de dar tratamento diferenciado aos cotistas.
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