Cartilha francana: “dará tudo errado!”


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Começa hoje a Fenafic, feira dos fornecedores da indústria de calçados (máquinas, couro, componentes, ferramentas, insumos, serviços etc.). Enquadra-se nessa categoria de fornecedor uma relação de empresas tão grande quanto o desamparo do povo brasileiro. Visite a mostra, são 200 expositores com novidades. Você está vendo uma publicidade da feira no rodapé desta coluna e pode imaginar que nosso convite é patrocinado. Nem pense em pensar nisso. A Fenafic é um empreendimento importante para os calçadistas. Recém-nascida, já pulou do berçário para a maturidade.Tudo o que é feito com qualidades (no plural) pula etapas e supera até macumba dos que torcem contra qualquer iniciativa. O francano enquadra-se nessa categoria de torcida, que apregoa: ‘Não comece nada, porque tudo dará errado.’ Ele é cristão, imagine se fosse pagão. É um bicho muito esquisito. Se você, por exemplo, abre uma pastelaria, os vizinhos comentam: ‘Vai quebrar num mês.’ Acrescentam, roendo as unhas: ‘Isso num cálculo otimista.’ Explicam com autoridade (leia-se ranço): ‘Aqui ninguém come pastel, só quibe.’ (Se você fizer quibe, dirão que aqui só se come pastel.) É um arrasta-pra-trás terrível, medonho. No entanto, se a sua pastelaria dá certo, os vizinhos maledicentes montam uma de imediato. Imitam sua receita, utilizam ingredientes mais baratos e partem para a concorrência predatória. Na indústria de calçados há centenas dessas ocorrências. Alguém lança um sapato com materiais ou modelagem diferenciados e, se for bem aceito, segue-se uma avalanche de clonagem. O puxa-pra-baixo que se percebe em Franca é o que há de mais daninho na inveja. Inveja é alguém desejar o que o outro tem. Ao contrário do que propagam as religiões, é um sentimento que gera ação negativa e positiva. Não é totalmente maléfico. Dependendo do caráter da pessoa, tem-se na inveja o estímulo para conquistar um desejo. Seguem dois exemplos dos vários casos que conhecemos e, supomos, você também. Exemplo da reação positiva: a pessoa é muito pobre, inveja a felicidade do patrão por ter ‘formado’ o filho em odontologia, ela come o pão que o diabo amassou e ‘forma’ o filho em advocacia. Exemplo da reação negativa: a pessoa é muito pobre, inveja a felicidade da vizinha por ter comprado a moto desejada, comendo as sobras do pão que o diabo havia pisoteado, ela anuncia para os quarteirões: ‘Dizem que um velhão abonado está sustentando essa mulher e parece que ela tem outro na mira; logo logo compra uma camionete, cabine dupla.’ A inveja é um estorvo no comportamento humano, porque predomina o lado indesejável. Não tem nacionalidade, menos ainda municipalidade. Mas adora Franca. Pelos danos que causa, invariavelmente gera sentimentos de culpa: o invejoso tenta aliviar a consciência pesada com ações superficiais de bondade, sem convicção, de curta duração, e no fim ainda se julga generoso. Moral da estória: pessoas e rochas são semelhantes na dureza, na brutalidade. A diferença é que gente destrói, pedra protege. BRASIL COLÔNIA As vendas de couros brasileiros no exterior totalizaram 1,12 bilhão de dólares no primeiro semestre. O faturamento superou em 12% as exportações de calçados, que totalizaram US$ 938 milhões de janeiro a junho. A informação é do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB). Apesar de positivo, o resultado não merece comemoração, porque permanecem elevados os embarques de wet-blue (matéria-prima sem beneficiamento, passa apenas por um banho de produtos químicos). ‘O wet blue é a commodity do couro. Trata-se de um produto primário. O Brasil precisa investir mais no aumento das exportações de produtos acabados, de maior valor agregado’, afirma o diretor-executivo do CICB, Luiz Bittencourt. Segundo ele, as exportações no primeiro semestre cresceram 30% em receita, comparadas às do mesmo período do ano passado, mas aumentaram apenas 4% em volume físico. ‘Ou seja, o aumento foi resultado da alta dos preços internacionais do couro’, explica. Bittencourt revela que o CICB reivindicou ao governo federal a abertura de financiamentos de máquinas para acabamento de couro aos curtumes que atualmente só realizam o primeiro estágio do beneficiamento. A entidade também quer a desoneração das importações de peles de cabras e carneiros, porque a oferta interna, em torno de 7 milhões de unidades, não atende à demanda dos curtidores. INTERINO O francano Saulo Pucci Bueno, vice-presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), comandou a entidade nos últimos dez dias, com o afastamento temporário do presidente Cláudio Vaz.

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