Pela porta dos fundos


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Já se foi o tempo em que os personagens das “dependências” eram vistos como elenco de apoio nas tramas. O espaço dos núcleos secundários aumentou nos últimos anos e, com isso, motoristas, faxineiros, cozinheiras ganharam tanto destaque que a profissão se transformou em mero detalhe. Esses papéis ganharam conflitos próprios e são eles que acrescentam humor aos capítulos. A cozinheira francana Rosa Maria Malta, 45 anos, assiste às três novelas da Rede Globo: Eterna Magia, Sete Pecados e Paraíso Tropical. A noveleira já percebeu a mudança de tratamento com as empregadas na televisão. “Agora esses personagens têm mais repercussão, aparecem mais nas histórias. Antes elas nem falavam, só serviam”. Fã da diarista Otília, personagem de Yaçanã Martins, em Paraíso Tropical, Rosa acha que essa valorização do trabalho na teledramaturgia se reflete na vida real. “Os personagens mostram bem nossa realidade e ajudam a diminuir o preconceito. Na novela dá para perceber que se pode confiar nas empregadas já que a gente fica mais tempo na casa da patroa do que em casa. Isso ajuda a rever a relação empregada-patroa”. Foi pensando assim que Marcelo Médici aceitou de cara o convite para interpretar Antero em Sete Pecados. Na história, o mordomo de Romeu, de Ary Fontoura, tem um caso tórrido com Otília, de Rosamaria Murtinho. “Ele tem uma vida longe do cenário da casa onde trabalha. Seria chato interpretar um cara que só aparecesse servindo ao seu empregador”, avalia Marcelo, que enxerga nos papéis de empregados uma possibilidade a mais para se trabalhar o humor nas tramas. Também mordomo, mas em outra novela, Benvindo Sequeira não se sente muito engraçado em cena. Tanto que, especialista em papéis histriônicos, como o inesquecível Bafo de Bode, de Tieta, considera o Juarez de Luz do Sol seu personagem mais contido até hoje na tevê. “É difícil encontrar um parâmetro na sociedade brasileira. Precisei recorrer aos exemplos estrangeiros”, explica. Walcyr Carrasco, no entanto, acha que não é incomum encontrar essas referências por aqui. O autor de Sete Pecados enxerga o mordomo como figurinha fácil na capital paulista. “Quase todas as famílias ricas de São Paulo usam mordomos ou copeiros. Existem até agências especializadas para se encontrar um bom profissional”, defende. Comuns ou não, os mordomos sempre reservam momentos de humor ou, a exemplo do que acontece nos romances policiais ingleses, são os principais suspeitos nas tramas de suspense. Mas dividem as atenções da “área de serviço” com as empregadas, que cada vez mais aparecem nas histórias. Thaís Garayp, que interpreta a simpática Zoraide em Paraíso Tropical, está feliz com o retorno do público. Na novela, a atriz dá vida à fiel empregada de Antenor. “Antigamente as empregadas só serviam para servir e dizer ‘não senhor, sim senhor’. Boas atrizes são escaladas para esses papéis”, opina. Com esse desenvolvimento de papéis menores nas novelas, vários talentos foram revelados a partir de atuações que começaram na área de serviço dos estúdios. Um bom exemplo é Juliana Paes, que estreou em Laços de Família, em 2000. Na época, a calipígia morena interpretava Ritinha, serviçal que engravidava do patrão Danilo, vivido por Alexandre Borges. No início, a atriz nem sabia que o papel teria um conflito próprio. “A Rita nasceu da noite para o dia. Só sabia que era uma empregada que vinha do interior”, lembra a atriz. Na mesma novela, Thalma de Freitas viu sua vida se transformar depois que terminaram as gravações de sua personagem Zilda, empregada de Helena, a protagonista encarnada por Vera Fischer. Mesmo com cenas resumidas ao trabalho da personagem. “Já fiz muitas empregadas e foram elas que me enriqueceram. No final de Laços de Família assinei meu primeiro contrato longo com a Globo”, recorda. Rosa lembra muito bem da personagem de Thalma. “Eu gostava muito da Zilda porque era uma pessoa de confiança, muito amiga da patroa”. RESPIRO CÔMICO Uma das alternativas para dar mais visibilidade aos serviçais das novelas é incluir pitadas de humor em suas cenas. Um dos adeptos dessa saída é Ricardo Linhares, que escreve ao lado de Gilberto Braga o folhetim Paraíso Tropical. O autor aproveita a criadagem para desenhar um clima leve e piadista através de elementos muitas vezes comuns fora da ficção, como fofocas e discussões entre patroa e empregada. “Uso essa parte do elenco como uma espécie de respiro cômico para a trama central. Quase sempre funciona muito bem”, fala.

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